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Shrek Para Sempre - Omelete Entrevista Mike Myers

Ator que dubla o ogro verde fala da criação do personagem e seu futuro
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Mike Myers surgiu no Saturday Night Life e estourou com Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne's World), mas foi com Austin Powers que ele ganhou o mundo... Pelo menos até engordar algumas dezenas de quilos, crescer outro tanto, ficar verde e ganhar um sotaque escocês. Pronto, estava criado Shrek, o ogro da Dreamworks que conseguiu o inimaginável, fazer sombra à Disney e seu domínio nas animações.

Na entrevista abaixo, o ator conta como foi a criação do personagem, o seu ciclo e também os outros trabalhos.

Esse é um filme engraçado e você sempre faz filmes engraçados. O que te faz rir, na vida real?

Mike Myers: Meu comediante favorito de todos os tempos é Peter Sellers. Eu também adorava as comédias dos Estúdios Ealing. Saturday Night Live também me faz rir. No momento, acho que John Stewart está fazendo a melhor comédia que existe por aí. Acho que a área da comédia que mais me interessa é aquela que está ligada a questões políticas e atualidades. Estamos num momento incrivelmente interessante para comédia, porque o gênero passa por ciclos. Nos anos 70, durante e depois da Guerra do Vietnã havia um mecanismo de decência, então você conseguia arrancar risadas em um recinto só dizendo "Richard Nixon". Sem nenhum conteúdo, só "Richard Nixon". Aí isso foi desmantelado e surgiram novas coisas.

Você acha que em momentos de crise financeira, como estamos vivendo agora, existe uma demanda maior por comédia?

Não, acho que sempre existe demanda por comédia, acho que não tem ligação com a economia. Estilos diferentes de humor aparecem em diferentes contextos mundiais, essa é a minha teoria. Se você olhar a comédia como base, você poderia dividi-la de várias maneiras diferentes - e esta é só minha teoria, então me perdoe. Mas acho que temos as comédias de "Não seria engraçado se..." e "Não é engraçado quando...". E parece que existe um ciclo entre esses dois estilos de comédia, vai de um para o outro, como um pêndulo.

Você poderia falar sobre como a comédia está no seus genes, que é algo que você já havia mencionado antes? Você poderia falar sobre o lado cômico que veio do seu pai e como foi crescer nesse ambiente?

Meu pai costumava dizer que não existe nada terrível o suficiente do qual não se possa dar risada. E dizia que as coisas só seriam terríveis até o momento em que você dá risada. E meu pai ria das piores situações, incluindo seu próprio Mal de Alzheimer. Ele achava seu Alzheimer uma coisa hilária. E não estou brincando. Ele não chamava de Alzheimer, ele chamava de Old Timer's e fazia piadas. Eu dizia, "Cara, você tá fazendo uma piada?", e ele dizia, "O que mais eu posso fazer? Não há nada para ser feito a respeito". E eu ficava impressionado, por que ele é que estava vivendo aquilo.

Ele foi uma grande inspiração para você, sua comédia e quem você é?

Sim, foi uma inspiração enorme. Para ele, cada momento era uma oportunidade para fazer algo engraçado. Era o que ele costumava dizer. Meu avô era igual. Os barbeiros em Liverpool costumavam perguntar, "Como você gostaria que eu cortasse seu cabelo?", e ele respondia, "Em silêncio".

[Risos na sala]

Sua mãe também é engraçada?

Minha mãe é... excêntrica. Ela não gera comédia intencionalmente, mas ela costumava dizer que era a graxa da máquina de comédia do meu pai.

Qual foi sua inspiração para Shrek? Você consegue lembrar do que te inspirou, originalmente? Porque esse personagem se tornou icônico e isso não era esperado na época, por causa do poder da Disney. Como você pensou esse personagem escocês?

Originalmente, fiz ele como um canadense. Quando eles me contaram sobre o lance dos contos de fada e como iam virar isso de ponta cabeça, achei interessante, porque vi que tinha um sistema de classes em funcionamento. Tinha o Lord Farquaad e como sou um cara da classe operária do Canadá, resolvi fazer um canadense. Como Eddie [Murphy] e Cameron [Diaz] tinham escolhido vozes americanas, achei que já tinham muitas vozes norte-americanas e eu queria fazer algo diferente. E os escoceses são muito engraçados quando estão bravos e quando estão alegres. E um ogro fica bravo toda hora.

Por que você acha que as pessoas gostam tanto de Shrek, que acabou se tornando um personagem que já faz parte da cultura internacional?

Tudo que é novo, que é diferente tem potencial para conquistar a plateia. Nesse caso, eles pegaram uma coisa tradicional, que é o conto de fadas, e transformaram os vilões nos mocinhos. O que é algo incrível e fresco. Acho que os cineastas são muito bons, e todos conseguem se identificar com a sensação de nunca ser bom o suficiente. Gosto dos personagens e a cada filme o resultado é melhor, tanto a animação, quanto a história. Acho que as pessoas conseguem sentir que a equipe tem muito cuidado com esses filmes.

Você teve alguma coisa a ver com o fim de Shrek?

Nós, os dubladores, somos sempre os últimos a saber de qualquer coisa.

Mas nesse caso, você criou esse personagem com a sua voz.

A responsabilidade é toda dos animadores. E o filme tem um roteiro tão bom. Às vezes eu refaço as frases para acrescentar elementos escoceses, mas a essência do filme está nos roteiristas e no diretor.

Você acha que o Shrek atingiu um novo nível nesse filme, em relação à personalidade dele?

Eu não sei. Você acha isso? Me sinto muito conectado a todos os filmes, sabe? Adoro fazer o filme, adoro estar naquele mundo.

Mas falo do próprio personagem, ao abandonar a família, ficar mais fraco e depois se recuperar e ficar forte novamente. Você acha que nós já o vimos assim antes?

Acho que o filme é sobre sentir que você é bom o suficiente para merecer um "felizes para sempre". Tantas coisas na vida do Shrek estão indo bem e acho que ele nem percebe. A maioria dos personagens em séries de filmes precisam aprender a mesma lição. Só James Bond não tem uma lição e não muda, que é uma das coisas mais interessantes quanto a um personagem em uma série de filmes. Mas a maioria dos personagens têm um vazio no coração, ou falha que leva a uma lição a ser aprendida. O motivo pelo qual revisitamos uma série é porque a lição não fixou e precisa ser aprendida novamente, em um rito de passagem diferente. No primeiro filme, Shrek não sente que ele é bom o suficiente para se apaixonar. No segundo, ele acha que não é bom o suficiente para se casar. No terceiro, que não é bom o suficiente para ser pai. E no quarto, que homenageia os três primeiros filmes, ele não sente que merece um final feliz. A raíz de todos os filmes é a mesma. Muitos personagens de séries têm isso e é assim que uma série mantém sua unidade, porque o personagem não mudou de repente. Ele ainda é aquele cara que conhecemos. Normalmente, você pode olhar para um personagem e dizer: se não fosse por tal coisa, ele seria de tal jeito. Então, se não fosse por sua falta de amor próprio, ele teria o amor dos amigos e família. Eu sei que isso é um pouco analítico e seco, mas eu gosto tanto da história que parei para refletir sobre isso.

Você tem características parecidas com Shrek?

Se eu tenho? Bom, acho que todos nós temos inseguranças, com certeza. E acho que todos nós às vezes sentimos que fazemos parte de alguma coisa, mas não fazemos parte de verdade, entende?

Eu gostaria de saber: vamos ver mais Austin Powers? E também, quais são seus outros projetos? Você ainda vai interpretar o Keith Moon?

Normalmente eu sempre tenho uns seis projetos em andamento. Três roteiros em que eu estava trabalhando estagnaram com a greve de roteiristas. Agora estamos começando novamente. Eu nunca diria "não" ao Keith Moon, é um processo em desenvolvimento. Filmes demoram muito tempo para serem feitos. São incrivelmente caros, então necessitam de muito cuidado para acontecer. Quanto a Austin Powers, é muito difícil manter uma equipe fixa. Não sabíamos que o primeiro filme se sairia tão bem, nem o segundo ou o terceiro. Temos uma ideia para o quarto filme já há muito tempo, uma ideia que amamos, mas ela requer uma convergência harmônica entre Jay [Roach, diretor], Michael McCullers [roteirista], eu, Mindy [Sterling]... Requer a união de todos.

O que te atrai para contar a história de Keith Moon?

Bom, eu toco bateria. Sou o filho mais novo de três irmãos e meu irmão mais velho tocava guitarra, o outro tocava baixo e eu fui forçado a tocar bateria. Normalmente, tocar bateria não é um dom, mas um acaso. Como jogar no gol. E eu acabei no gol, porque era o mais novo. Mas Keith Moon era a exceção. Ele sempre colocava a bateria na frente do palco e eles desparafusavam tudo e colocavam lá atrás e eles sempre brigavam por causa disso. E o jeito que ele tocava era como se estivesse conduzindo a banda. Ele também foi um dos primeiros bateristas compositores do rock'n'roll. Então em "Pictures of Lily", a bateria dialoga com o vocalista, porque ele achava que a bateria era um elemento principal na música. Então essa loucura e essa audácia para enxergar a bateria dessa maneira é o que me atrai.

Então qual será seu próximo filme?

Eu não sei. E eu nunca sei. Há um ano e meio atrás recebi uma ligação do Quentin Tarantino, do nada, dizendo "Você gostaria de atuar no meu filme de Segunda Guerra Mundial e viver um general britânico?". E eu disse, "Siim!! Claro que sim! Quando é a filmagem?". "Em novembro". E eu, "Tô dentro. Estou super dentro". E eu não tive nada a ver com o roteiro. Normalmente, quando eu faço um personagem, eles me perguntam como eu gostaria que fosse a maquiagem e o figurino. Nesse filme não me perguntaram nada, tudo era decisão do Quentin Tarantino. Quando fui fazer o teste de maquiagem, fiquei falando do que eu gostaria de fazer e o maquiador ficou dizendo, "Aham, aham, aham. Olha, isso aqui é o que Quentin quer que você faça". E eu disse, "Ah, tudo bem". E quando vi tudo servia, tudo estava certinho.

Você parece se divertir muito em todos os filmes que faz.

Eu me divirto mesmo.

Quais conselhos você daria para jovens atores que querem entrar na indústria cinematográfica?

Eu diria "Siga sua brisa, faça aquilo que te faz feliz". E é por isso que eu não faço muitos filmes. Adoro minha profissão, adoro fazer filmes, e também gosto de ser uma pessoa. Essa é outra questão importante, eu diria. Não esquecer de separar um tempo para ser uma pessoa comum, para simplesmente fazer as coisas que te deixam feliz. E não ficar muito preso na carreira, porque isso nunca vai te dar o que você precisa. Eu sou muito grato, e sou muito feliz. Mas no fim das contas, no meu leito da morte não vou dizer "Meu Deus, como eu gostaria de ter feito mais 10 filmes". Mas acho importante aproveitar cada filme que fiz.

Shrek para Sempre já está em cartaz, em cópias 2-D e 3-D.

Shrek Para Sempre
(Shrek Forever After) Direção: Mike Mitchell Estreia em 09/07/10
sobre o filme
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