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Da Frigideira: O Último Mestre do Ar

Nosso texto de primeiras impressões compara o filme de M. Night Shyamalan com o desenho que lhe deu origem
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Do ponto de vista artístico, nada obriga M. Night Shyamalan a ser fiel ao desenho que deu origem ao seu filme mais recente, o primeiro com roteiro adaptado, O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010). Mas todo fã de Avatar quer saber, claro, se a série animada da Nickelodeon foi respeitada no cinema. Este texto de primeiras impressões, que precede a crítica, vai tratar das diferenças entre o desenho e o filme.

Assim como a primeira temporada de Avatar, o filme se chama Livro Um e acompanha o despertar centenário de Aang e seu caminho até se tornar um mestre dobrador de água no Pólo Norte. A história começa e termina exatamente como no desenho - o que muda é o tratamento de alguns temas, a condensação de eventos (para fazer cabê-los num longa-metragem) e a distribuição de informações ao longo da trama (elementos que no desenho são mencionados só no último episódio, por exemplo, Shyamalan aborda antes).

Se você não conhece o desenho, talvez prefira parar por aqui. Spoilers adiante:

A mudança de tratamento já fica clara nas primeiras cenas. Zuko captura Aang no Pólo Sul sem manipular fogo e, dentro do navio, também evita o confronto. O herdeiro bastardo da Nação do Fogo e seu tio tratam o Avatar com respeito e adiantam que precisam levá-lo ao Senhor do Fogo para que Zuko seja aceito de volta pelo pai.

Nesse ponto, Shyamalan já mostra duas coisas: seu Zuko está mais para anti-herói incompreendido do que para vilão (o que no desenho só fica mais saliente depois do episódio do Espírito Azul) e as demonstrações de poder são raras. Muito é resolvido no diálogo e brigas acabam antes de começar - afinal, é a filosofia zen que está sendo ensinada aqui - e, se não fosse a cena do treinamento com os sparrings no convés, só veríamos Zuko dobrar fogo no clímax da história. Aliás, para manipular fogo no filme é preciso uma fonte externa de calor. Só os mais experientes dobradores conseguem gerar fogo a partir de seu próprio chi.

Tudo se relaciona à questão do autocontrole. Ela é o assunto central de O Último Mestre do Ar. No desenho, Aang consegue dobrar água sem problema. No filme, o trauma da extinção do seu povo, os Nômades do Ar, impede que ele se concentre e manipule normalmente qualquer elemento que não seja o ar. Já o contato com o mundo espiritual - tema apresentado no desenho apenas no sétimo episódio - é simplificado por Shyamalan e espalhado ao longo do filme para deixar mais claro o desafio proposto a Aang. Da mesma forma, a obsessão da Nação do Fogo pelo Espírito da Lua também é mencionada cedo no filme para não parecer gratuita quando for importante no final.

O diretor evidentemente privilegia a dramaticidade do lado espiritual do desenho. O filme tem humor, sim, mas não no mesmo volume de Avatar, que trata as gags como respiros entre cenas dramáticas para que não se leve tudo tão a sério.

De resto, dos encontros episódicos que Aang, Sokka e Katara têm ao longo da temporada, o filme conserva apenas a passagem pela vila dos dobradores de terra. No desenho ela serve para reforçar o heroísmo de Katara; no filme, de Aang. Já o episódio das guerreiras Kyoshi foi incluído por Shyamalan - Suki, a líder, aparece até em um dos cartazes - mas o diretor preferiu removê-las na sala de montagem por achar que desviavam demais da narrativa principal.

Shyamalan é esperto ao colocar dois pontos essenciais do desenho - o treinamento do Avatar e o contato com o mundo espiritual - dentro do tema do autocontrole, já que tudo no filme deriva da meditação. Mas a forma como o roteirista/diretor didatiza a exposição de informações ao espectador fica aos poucos problemática. Isso sem contar que a sua opção pelo não confronto transforma O Último Mestre do Ar em um filme de ação sem muita ação... Mas aí já é assunto para a crítica.

A crítica será publicada um dia antes da estreia, e o Especial do filme terá entrevistas também. O Último Mestre do Ar chega aos cinemas brasileiros em 20 de agosto.

PS: O filme foi visto em 3-D nos escritórios da Paramount no México. Durante a projeção, não era difícil assistir a trechos sem os óculos; só a legenda parecia saltar da tela. A conversão ao 3-D de O Último Mestre do Ar não deforma a imagem como a de Fúria de Titãs, mas também não altera sensivelmente a profundidade - é um 3-D inócuo.

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O Último Mestre do Ar
(The Last Airbender) Direção: M. Night Shyamalan Estreia em 20/08/10
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