Filmes

Lavoura Arcaica

Arcaica, sim, mas muito rica
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"Se vocês conseguirem diminuir a duração para 1h50, ganham a Palma de Ouro em Cannes", disseram os empresários do "Canal Plus" francês ao diretor Luiz Fernando Carvalho e aos empresários João Moreira Salles e Walter Salles, os irmãos donos da Videofilmes. Meio conselho, meio intimação, o recado foi dado durante as negociações sobre o direito de distribuição no exterior de Lavoura Arcaica (Brasil, 2001), o filme de estréia de Carvalho, produzido pela Videofilmes. Ciente da qualidade da película, o "Canal Plus" se dispôs a injetar US$ 500.000,00 na produção, caso fosse respeitada a data limite de finalização e o tempo estipulado de duração.

Acontece que a primeira versão de Carvalho tinha 3h40. Com a ajuda do escritor Raduan Nassar, paulista de Pindorama, o autor do livro homônimo em que se inspira o filme, houve um primeiro corte - "Lavoura" ficou com 2h50. No entanto, a posição dos franceses era firme. Carvalho, comprometido com a sua criação, se recusou a ceder mais. O prazo de entrega venceu. Como os irmãos Salles concordavam que a vontade do diretor deveria prevalecer, abriram mão do auxílio. "Lavoura Arcaica" ficou pronto dois anos depois do rompimento do contrato com o "Canal Plus".

Diálogos poéticos

Uma dentre tantas histórias que cercam o filme, o drama da edição e da negociação mercadológica ilustra perfeitamente a atmosfera que se instalou sobre Carvalho e todo o seu trabalho. Em nome da autonomia autoral, da liberdade criativa, a Videofilmes ousou apostar numa obra extensa. Mais que isso. Ousou apostar num talento promissor, oriundo da televisão, da direção de produções Globais como O Rei do Gado (1996) e Os Maias (2000). Raduan Nassar já havia tido o seu segundo livro, Um Copo de Cólera, adaptado ao cinema. A linguagem forte e peculiar do autor não foi bem assimilada nas telas. Lavoura, de 1975, seu texto de estréia, se mostrava ainda mais impenetrável. Aqui, porém, todas as apostas feitas se legitimam. Carvalho sobressai com uma obra que oferece novidades visuais, atuações empolgantes e audácias narrativas. O filme segue o livro, mas  contra-ataca a seu modo.

Quinto dos sete filhos de uma família de imigrantes libaneses, André (Selton Mello) vive incomodado com as normas patriarcais e com a influência do pai (Raul Cortez). Resolve fugir de casa, apesar do apego à mãe (Juliana Carneiro da Cunha) e à irmã, Ana (Simone Spoladore). Depois de certo tempo de afastamento, recebe a visita do mano mais velho, Pedro (Leonardo Medeiros), e o pedido para que volte ao seio familiar. A partir daí, a narrativa reconstitui toda a infância e a adolescência de André, principalmente os motivos que o fizeram sair do lar, e os instantes que marcam o seu retorno. Vista do avesso, a parábola do bom filho que à casa retorna, escancara duras relações pessoais e anseios de liberdade.

Não só pela história, mas por sua realização, Lavoura Arcaica merece destaque. O roteiro básico se resumia a questões técnicas: quando apresentar a família, quando focar tal personagem, quando revelar acontecimentos. Todos os diálogos nasciam de improvisações e respostas do elenco ao texto de Nassar. Extremamente poéticos, configuram, juntamente com a fotografia de luminosidade ousada, a força maior do filme. Até mesmo as prostitutas declamam os seus versos. Mas são difíceis, literários e pedem atenção. Nas 2h50 de projeção, chegam a extenuar, mas não perdem, em absoluto, a sua beleza. Como justificativa para todas as suas escolhas, Carvalho alegou simplesmente que necessitava se expressar. Chegou a um resultado ambicioso. Felizmente, graças à independência de seus realizadores, Lavoura Arcaica ainda vai gerar muitas leituras e discussões. 

Lavoura arcaica
(Lavoura arcaica) Direção: Luiz Fernando Carvalho
sobre o filme

UMA OBRA-PRIMA DO CINEMA MUNDIAL, VIVA O CINEMA BRASILEIRO, SIMPLESMENTE O MELHOR FILMES QUE EU ASSISTIR NA MINHA VIDA!

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