Filmes

Onde os Fracos não Têm Vez

Faroeste devolve a dignidade ao cinema dos irmãos Coen
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Saiu do clássico O Homem que Matou o Facínora (1962), de John Ford, a frase que define o Velho Oeste: "Entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda". Não importa se o personagem de James Stewart matou ou não matou Liberty Valance de verdade - enquanto houver alguém para contar a história, o mito do tiro certeiro viverá. Da mesma forma, quando um pistoleiro entra num saloon, é a imagem que fazem dele, e não sua eventual rapidez no gatilho, que vale mais.

Llewelyn Moss (Josh Brolin) tem contra si um Liberty Valance em Onde os Fracos não Têm Vez (No Country for Old Men): Anton Chigurh, o matador interpretado pelo espanhol Javier Bardem no faroeste que devolve a dignidade ao cinema dos irmãos Joel e Ethan Coen (Fargo, O homem que não estava lá). Os tempos são outros, a fronteira empoeirada com o México mudou, mas as lendas permanecem. Ao mesmo tempo em que desconstrói o herói do western, Onde os Fracos não Têm Vez constrói em Anton Chigurh um mito.

O filme abre com a prisão do matador. Entre seus pertences, um cilindro de ar comprimido, que não demora para entendermos como funciona, e para quê. Paralelamente, acompanhamos Llewelyn no descampado texano, caçando cervos. O fato de Llewelyn errar o tiro e não conseguir abater o animal ao mesmo tempo em que Chigurh vara o cérebro de sua vítima sem deixar provas é o primeiro dado que o filme nos dá para evidenciar o abismo que separa os dois personagens. Temos o assassino perfeito versus o errante sujeito sem dons, e o suspense começa quando o primeiro passa a perseguir o segundo.

Há um MacGuffin aí no meio, uma mala com 2 millhões de dólares, mas, como todo MacGuffin, ela vale tudo para os personagens e não significa absolutamente nada para o espectador. O que vale para nós é o embate de Chigurh com Llewelyn, o homem-mito contra o homem-real.

O xerife interpretado por Tommy Lee Jones entra aí como mediador. A ele cabe não apenas hiperbolizar a lenda de Chigurh como manter no chão o mundano Llewelyn. A questão da oralidade é fundamental na construção das lendas de faroeste, e Onde os Fracos não Têm Vez respeita essa lógica - no mais, a oralidade, frequentemente expressa na figura de um narrador, é ponto importante na filmografia dos Coen. Nas cenas na delegacia e no café, o xerife e seu subalterno trocam histórias tão sangrentas e bizarras quanto essa que estamos acompanhando na tela - o que é uma forma de mitificá-la ainda mais.

Que o clímax do filme nos seja apresentado em uma elipse anti-climática (o desfecho do embate visto pelos olhos do xerife) é o ponto máximo da construção da lenda. Para a posteridade ficará somente a versão das testemunhas, como em O Homem que Matou o Facínora.

No mais, há por trás do jogo de versões e perspectivas todo um contexto de época. O filme é uma adaptação do romance homônimo de 2005 do estadunidense Cormac McCarthy, que ambienta a história no Texas de 1980. Não é, vale repetir, o mesmo Velho Oeste dos colonizadores. James Stewart representava em 1962 a vitória do civilizador sobre o selvagem - o tema da superação do homem sobre o ambiente, enfim, que percorre todo o faroeste em seu período clássico. Já Onde os Fracos não Têm Vez é a desconstrução niilista do herói mítico porque hoje a civilização perdeu, os heróis perderam, o ambiente venceu.

Boa sorte a Llewelyn Moss contra o seu Liberty Valance.

Onde os Fracos Não Têm Vez
(No Country For Old Men) Direção: Ethan Coen Estreia em 01/02/08
sobre o filme
Galeria de imagens (34)

ok, agora usar ele para mostrar uma nova geração do crime acho meio errado, já que um psicopata em 1480 é o mesmo de 1980

Acho que seria só o criminoso, a critica a sociedade é mais sutil. Nem sei se ele critica falando que é errado, ele só demonstra a diferença. Vamo lá, o que eu vejo: Muito por causa das drogas, as quantias envolvidas muito altas, os criminosos ficam cada vez mais violentos. Eu vejo que o Anton Chigurh (Assassino) como a representação desse novo modo operante do crime. Eu achava que ele era uma pessoa sem "moral" cristã, que o Nietzsche critica, fala que só protege os fracos e tal. Poderia então pensar que ele não tem moral nenhuma, nenhum valor. Quando ele vai matar o outro assassino, que estava atrás dele, ele ainda fala: Se as regras que vc seguiu te trouxe ate aqui(hora da morte, na frente da 12 engatilhada) que valor essas regras tiveram? Resumindo, de que adiantou vc seguiu a moral e morrer. Então eu pensava que ele não tinha moral/valor nenhum. Era um utilitarista. Fazia as coias de acordo com seu interesse. Mas ela vai até a casa da viúva, e mata ela.... mesmo que não tenha matado, pq ele foi até lá? Se ele é utilitarista, pq se arriscar e ir na casa dela? só pq prometeu pro morto? Meio psicopata isso... Não sei. E no final, para não parecer que tudo esta perdido, o filma mostra o Anton Chigurh batendo o carro e quase morrendo. Meio que falando que o acaso tb pode interferir e que nem tudo pode ser planejado. Mas ai o assassino se aproveita da corrupção humana (uma critica a sociedade, ó) e oferece dinheiro pra dois jovens(representam a nova geração que esta por vir) que se vendem por uns trocados, fingem que não precisava, que era de coração, mas no final briga por causa do dinheiro.... Enfim.. da pra pensar alguns assuntos ae...

não entendi a questão da filosofia nova e velha, isso quer dizer o que ? que o novo pensamento humano tem valores errados ? ou que o novo pensamento criminoso humano tem a ética errada ?

O filme é bom sim, vou tentar explicar o pq. Sou aluno de cinema e assisti esse filme antes e depois da faculdade, e percebi que eu não sabia "ler" um filme. Assim como analfabeto funcional na literatura, eu não sabia ler um filme. Primeira coisa que vc tem que pensar, O que o cara quer dizer com esse filme, qualéque é a desse filme. Filmes bons tem um qualéqué por traz, um questionamento filosófico sobre uma fenômeno humano. Normalmente o titulo ajuda a identificar qualé a do filme. A tradução para Onde os fracos não tem vez, atrapalha na interpretação. O Original traduzido para o popular, sem ser ao pé da letra, seria melhor, onde os velhos não tem vez. Isso ja ajuda a entender que o principal do filme não é o cara do dinheiro, e sim o policial velho. E não é sobre esse velho especifico que o filme trata, é sobre uma moral, filosofia, ética, velha, sendo substituida por uma ética no crime impiedosa, sem respeito, sem ressentimento, calculista e utilitarista. Esse é o qualéque é do filme. Por isso o filme tem final sim, e o final é quando o Policial velho não consegue proteger o cara do dinheiro. A história acaba, a filosofia antiga perdeu, e sera substituida. Fatos relevantes: Pq o cara vai levar agua para o mexicano na caminhonete? Contraste entre a cultura antiga e a nova. Se não levasse água, teria ficado com dinheiro, e filme acabaria. O segundo assassino contratado, que vai visitar o cara do dinheiro no méxico, leva flores para ele. De novo, contraste entre cultura antiga e nova.... O cara usa mangueira de matar vaca para matar as vitimas, como se os que não seguissem a nova moral, cairiam como gado. É uma figuração de como era facil quando vc ão tem moral critã ( Nietzsche?) ... Assistindo o filme, cada hora vc encontra mais elementos que reforçam essa idéia.. Uma duvida que ainda tenho, Pq mesmo o assasino doido não respeitando valores morais, respeitava o acaso? Respeitava o que a moeda lhe falasse... O acidente do final, que ele quebra o braço, foi o acaso, o que quer dizer? E o fato dele ter ido visitar a mulher do cara do dinheiro, mesmo não ganhando nada com isso, foi um ato de psicopatia? é uma critica a essa nova filosofia? ela é psicopata? Abraço

Os críticos apreciam os detalhes, ninguém é obrigado a gostar de detalhes, por isso ninguém é obrigado a assistir nada, tem pessoas que só gostam de ação, outros só do romance, mas pra determinar se um filme é bom ou ruim você tem que saber analisar, ou então, simplesmente não analisar e aceitar que as coisas não são sempre do jeito que nós queremos.

Cadê o dinheiro? Foi tudo sonbo do Lee Jones?

'You can't stop what's comin''. Filmaço dos irmãos Coen que criou um dos vilões mais icônicos das últimas décadas.

Nossa que filme ruim ... Tem toda uma jogada de cenas , um sentido figurado e tal ... Uma forma simplista do imaginário texano e blá blá blá blá, coisas que críticos adoram falar. O filme tem um ótimo suspense, mas não tem uma conclusão. É um filme que não termina, e um filme sem final não é um filme, é um rascunho, um esboço. Aí você me responde : Você não entende nada de cinema ! Sim ! Concordo... Não entendo nada do cinema a la arte barroca.

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