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Mágico Vento: Inusitada HQ de faroeste

Mágico Vento: Inusitada HQ de faroeste
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Mágico Vento 9

Mágico Vento 10

Alguns eventos tornam-se mitos na história das civilizações humanas.

A conquista do velho oeste norte-americano parece ter trazido inspirações mágicas, tornando-se um desses mitos, que se espalham e são exportados além dos oceanos, como as sementes de muitos dos alimentos que a população mundial comunga atualmente, desde o arroz e trigo, vindos do extremo e meio oriente, respectivamente, e o milho sul-americano.

Assim, nas histórias em quadrinhos, o Velho Oeste tem sido incansavelmente revivido, principalmente por produções européias, como nas dos franceses Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, com o ético Blueberry, sem falar dos heróis produzidos na Itália, dentre os quais figuram Tex, Ken Parker e Mágico Vento. É sintomático, aliás, que tais produções tenham procedência italiana, pois, afinal, um grande montante de filmes do gênero Western também foi produzido nesse país, que, no mapa, parece ter a forma de uma bota (de cow-boy?).

Das personagens italianas acima citadas, talvez o mais inusitado seja Mágico Vento, cujo verdadeiro nome é Ned Ellis, o único soldado sobrevivente de um massacre, que vive em meio aos índios sioux, caracterizando a personagem-padrão que reflete um herói diplomata, tentando conciliar as agruras entre as duas raças (invasor branco e invadido pele-vermelha).

Mágico Vento traz alguns pontos interessantes.

Um tópico a ser ressaltado, nesse sentido, é a questão da dupla de heróis, que sempre permeia alguma ou outra criação dos quadrinhos. Veja-se, por exemplo, o caso de Dylan Dog, outra personagem de origem italiana, publicada no Brasil pela Editora Mythos, em que um simpático Groucho Marx dá o ar de suas brincadeiras como parceiro do protagonista (de Batman e seu companheiro Robin, a mais famosa dupla dos quadrinhos, é melhor até evitar falar, por ser este um passado bastante comprometedor para o gênero...).

Em Mágico Vento, como que para manter a tradição do amigo famoso, temos Willy Richards, cujo rosto é idêntico ao do escritor norte-americano Edgar Alan Poe e por isso recebe o apelido de Poe. Este simpático jornalista acompanha - e, para variar -, auxilia Mágico Vento, quando pode e deve.

Até aí, nenhuma novidade. A grande inovação diz respeito ao toque xamânico nos quadrinhos de Mágico Vento: o herói possui uma cicatriz na testa, local por onde entrou uma farpa de metal, alojando-se no cérebro, fazendo com que este se esquecesse de seu passado, mas também o tornando portador de uma PES (percepção extra-sensorial) que lhe possibilita vaticinar o futuro.

Uma premissa absurda? Nem tanto. Aos céticos, pode-se adiantar que o cérebro humano é um nó para a ciência; quanto mais ela o esmiúça, mais intrigantes enigmas aportam: muito mais do que as já inumeráveis descobertas que vêm conseguindo os cientistas, tanto as que concernem à estrutura físico-química cerebral, como à cognitiva. Portanto, em matéria de cérebro e PES, tudo ainda pode ser possível!

Assim, está montado um palco que pode dar muito pano para manga (ou para muitas aventuras...). Nestas edições, Derek Dish, um homem insano e filho de um dos fundadores do vilarejo Carved Rock, retorna a essa cidade, cuja população aguarda se concretizar uma profecia, que está intimamente ligada a um rochedo que a natureza fez o favor de esculpir com a face de uma das personagens-chave da trama.

Os roteiros de Mágico Vento têm detalhes inspirados provenientes de várias fontes, tanto da literatura como do cinema. A idéia do rochedo esculpido foi tirada da obra A letra escarlate do escritor norte-americano do séc. 19, Nathaniel Hawthorne, e algumas passagens dos gibis trazem nitidamente recorrências de dois grandes filmes, Psicose e Silêncio dos inocentes, de forma totalmente ímpar e fluída, sendo bem aproveitados no contexto das duas histórias que se completam num só roteiro, cujos títulos soam coerentes: Cara de Pedra (no. 09) e Esqueletos (no. 10). Além disso, informações acerca da guerra travada entre sulistas e nortistas dos Estados Unidos, bem como a respeito dos escritores Edgar Alan Poe e Nathaniel Hawthorne, que se encontram no editorial e num texto jornalístico dentro das edições podem ser aproveitados pelo leitor. Tais iniciativas demonstram atenção e coerência da editora brasileira para seu leitor em potencial, que, fica claro, não precisa ser fã deste gênero para apreciar as narrativas empolgantes e bem conduzidas. Desta forma, por meio de uma agradável e proveitosa leitura, ele vê ampliada sua bagagem informacional.

Detalhes da simbologia indígena norte-americana e fatos científicos atinentes ao comportamento dos animais convergem com a questão antropológica e as nuances da mente humana, refletidas nas personagens que desfilam nas páginas destas duas edições: o herói misterioso, o bandido com problemas mentais engatilhados desde um passado infantil estranho, o médico alienista, o padre, o jornalista, a ética dos índios (nestas edições, os índios Utes estão prestes a guerrear com a vila Carved Rock, se os moradores desobedecerem o pacto de não explorarem a montanha sagrada, em busca de ouro), tudo permeado por um ar lúgubre, reforçado pela técnica de desenho preto e branco.

Os coloridos das capas poderiam seguir a sobriedade da que foi elaborada para a décima edição. Infelizmente, como é regra neste gênero de quadrinhos, não há ousadia nas construções dos requadros, não obstante, como se comentou, haja fluidez na narrativa. Quanto aos desenhos, pode-se dizer que estão na média, sendo um pouco inferiores em habilidade técnica aos elaborados para Ken Parker. Porém, como o próprio editorial explica, haverá mudanças de ilustradores futuramente...

Mágico Vento 9 e 10
Mythos Editora
R$ 5, 50.

Gazy Andraus é pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e doutorando em Ciências da Comunicação da ECA-USP, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

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