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O Que Aconteceu Ao Homem Mais Rápido do Mundo? | Crítica

Flash da vida real mostra como se define um herói de verdade
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O que aconteceria se você fosse o Flash? Mas uma versão muito mais realista: Sem uniforme, sem a Força de Aceleração que o impede de ser derrubado pela inércia, desgastado pelo atrito e os efeitos da relatividade do tempo?

Você seria Bobby Doyle, um rapaz que nasceu ao mesmo tempo "abençoado e amaldiçoado" com o poder de parar o tempo. Do ponto de vista das pessoas à sua volta ele é um borrão que se move em alta velocidade que só pode ser visto por algumas câmeras de segurança. Mas na visão dele, as pessoas estão congeladas à sua volta, o mundo não se move e fica meio fora de foco. Bobby não esconde sua identidade, até porque ninguém consegue ver seu rosto, mas também não é uma celebridade. Ele é um herói, uma pessoa que realiza pequenos sacrifícios pessoais para ajudar ao próximo.

A graphic novel O Que Aconteceu Ao Homem Mais Rápido do Mundo da Gal Editora chega agora à segunda edição. A trama explora os limites da máxima "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades". Essa sensação de responsabilidade e solidariedade diante do próximo fazem de Doyle um herói - ele poderia muito bem invadir bancos, pregar peças, fazer maldades inimagináveis, mas escolheu ajudar as pessoas ao máximo dentro do que lhe é possível.

Foi assim quando salvou todos os passageiros de um trem desgovernado - que se viram como que teletransportados para um local seguro nas redondezas - e é assim que larga seu almoço num dia qualquer ao ver no noticiário da TV que um gênio louco plantou uma bomba poderosíssima no edifício Prometheus, cujo timer marca apenas uma hora para a detonação. Ninguém sabe como desarmar a bomba e ela matará a todos em um raio de 3 quilômetros.

Para evacuar essa área toda, o "homem comum que pode parar o tempo" terá que abdicar de si mesmo nessa que será a hora mais longa de sua vida. Nesses 60 minutos ele vai entender melhor como funciona a vida em uma sociedade interdependente, entender como o ser humano é gregário e precisa de seu semelhante - e até por isso sua solidão não parece desprovida de sentido.

Essa discussão sobre heroísmo em um mundo real é o que pontua a obra dos britânicos Dave West e Maureen Lowe - cuja arte irregular e ainda a ponto de se desenvolver muito mais é o único ponto fraco da obra. O realismo que permeia o álbum está presente em todas as escolhas - dos enquadramentos no nível dos olhos à capa que reproduz a primeira página de um jornal. Quando o tempo congela, Doyle aparece mais nítido que todo o ambiente e as pessoas à sua volta, como se fosse mais real, mais "de verdade". Uma figura rara e especial, que contrasta com uma realidade em que só o benefício pessoal importa. O herói é de uma pureza de espírito comparáveis à do Superman ou Homem-Aranha, e parte de sua criação é mostrada em uma história extra, feita com exclusividade para a edição brasileira.

Muito se reclama entre os fãs sobre a morte de super-heróis nos quadrinhos mainstream serem usadas apenas como recurso para alavancar vendas, mas partindo da ótica realista, se esses mesmos heróis existissem em nosso mundo - em que um noticiário policial parece mais empolgante e absurdo que um filme de Hollywood -, talvez morressem aos montes. Como morrem soldados, bombeiros, pedreiros, policiais, eletricistas, pilotos e especialistas em bombas, no cumprimento do dever. Porque heróis de verdade são capazes não só de grandes momentos de coragem, mas de grandes momentos de autossacrifício, para que o mundo em volta funcione direito e as pessoas tenham uma vida normal.

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