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Corações Sujos | Crítica

Filme baseado no livro de Fernando Morais não escapa da sina das adaptações cheias de solenidade

Marcelo Hessel
16 de Agosto de 2012

Corações Sujos

Corações Sujos

Brasil , 2011 - 107 minutos
Drama

Direção:
Vicente Amorim

Roteiro:
David França Mendes

Elenco:
Tsuyoshi Ihara, Takako Tokiwa, Eiji Okuda, Kimiko Yo, Shun Sugata, Celine Fukumoto, Eduardo Moscovis, Issamu Yazaki, Ken Kaneko

Regular
corações sujos
corações sujos

Começa com uma imagem-síntese o filme Corações Sujos, a adaptação ao cinema do livro de não-ficção de Fernando Morais. O fotógrafo Takahashi (Tsuyoshi Ihara) recebe em seu estúdio numa cidade do interior de São Paulo famílias de imigrantes japoneses, para tirar seus retratos. Cabe aos fotografados escolher o fundo: as palmeiras brasileiras ou o icônico Monte Fuji.

Nessa decisão aparentemente prosaica está contido o drama de todo imigrante, abraçar uma nova cultura ou manter-se fiel à pátria natal. Em 1946, a colônia japonesa no Brasil passa por um momento que agrava esse dilema; o Japão acaba de perder a Segunda Guerra Mundial, mas os mais nacionalistas se recusam a acreditar nessa "mentira dos Aliados". Instintivamente, crer na rendição do imperador Hirohito significaria aceitar que a nova cultura é a única opção possível para os imigrantes.

No filme, Takahashi é um desses nacionalistas. Ele se torna um executor do Shindô Renmei, organização que assassina os de "coração sujo", como eles chamam os imigrantes que não acreditam na vitória do Japão. O filme do diretor Vicente Amorim parte do episódio real que abre o livro - a prisão de japoneses que ameaçavam matar o cabo do exército que ofendeu a bandeira do Japão - para ficcionalizar a história de Takahashi e mostrar como seu senso de honra se transforma em tragédia.

O ator Tsuyoshi Ihara, que esteve recentemente em 13 Assassinos, já fez no Ocidente um personagem desse tipo, um dos soldados enviados para o combate cego de Cartas de Iwo Jima. A ele se juntam em Corações Sujos outros atores conhecidos da TV e do cinema no Japão, como Eiji Okuda (que faz o comandante do Shindô Renmei). Amorim visivelmente procura fazer um filme fiel à cultura nipônica, com atores de lá e diálogos legendados, e a própria estética tenta se aproximar de um certo cinema japonês clássico, à la Kurosawa. É nessa aproximação, porém, que o diretor não se encontra.

A cena mais problemática, que resume um pouco os defeitos do filme, é o momento em que Takahashi fica frente a frente com o dono da cooperativa, um dos "corações sujos". A câmera mantém meia distância dos atores e fica ciscando ao redor deles, num jogo de pêndulo que se repete insistentemente, como se a cena fosse um disco riscado. Essa meia distância procura ter uma suposta austeridade (que seria uma marca japonesa), mas o fato é que manter distância, não se envolver demais, pode ser também uma forma de omissão. E uma marca do cinema japonês de fato, a economia de planos, certamente passou longe daqui.

Então Corações Sujos, que já tem uma propensão natural ao "cinema de qualidade" (adaptações de best-sellers e reconstituições históricas tendem a ser mais protocolares), deixa a impressão de ser um filme excessivamente solene. Os poucos riscos que Amorim aceita correr, os de fotografia (momentos desfocados como se estivessem sendo registrados com o tilt-shift do Instagram), não são riscos de fato, já que a indústria do cinema habitou-se a confundir fotografia "arrojada" com assinatura de autor.

Pelos seus filmes, particularmente desde o anterior Um Homem Bom, Amorim parece caminhar em direção a esse cinema de temas graves e estética "correta". No geral, porém, Corações Sujos fica refém dessa paralisia. Seus personagens parecem chocados o tempo inteiro, e o choque, que não necessariamente leva a uma reação, se estende ao filme em si.

Corações Sujos | Trailer

Corações Sujos | Cinemas e horários


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Comentários (33)

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sem avatar luis gustavo (14/04/2013 23:39:52)   -1 0
Infelizmente as pessoas ainda confundem uma historia interessante com bom Cinema, acreditam que basta assistir filmes fora do padrão Hollywoodiano para entender do Cinema, leem Criticas somente para ver se o Critico concorda com elas e não procuram estudar Cinema, ler livros tecnicos e a historia do gênero.



sem avatar Reginaldo (02/10/2012 15:30:46)   1 0
Nagisa Oshima (Império dos Sentidos, 1976), um dos grandes destaques do cinema japonês, cujo avô migrou para a Amazônia brasileira década de 30, e aliás visitando ele próprio o Brasil anos mais tarde, manifestou interesse em filmar a organização Shindo Renmei. Imagina que primor seria!
Essa história que contei pode ser conferida no livro do Jeffrey Lesser, Uma Diáspora Descontente. Aliás, um livro e tanto.



sem avatar Reginaldo (09/09/2012 12:48:21)   1 0
"Shindo Renmei", essa, que era a organização que perseguia, agredia e assassinava aos nisseis e nipo-brasileiros que aceitavam a derrota do Japão na Segunda Guerra, sequer é mencionada no filme.
Ou seja, o filme despresa o próprio fato histórico que lhe dá motivação, para criar uma trama qualquer...



sem avatar José (08/09/2012 14:19:21)   0 0
Um bom filme. A minha crítica é contra a tentativa de "humanizar" o assassino ao descrevê-lo como um bom pai de família e marido. Não vejo como um homem com esse perfil pode cometer tantos assassinatos brutais. Uma tentativa de justificar a história de forma ingênua. Uma visão eufeministica da história real.



sem avatar Flavio (02/09/2012 18:12:29)   2 0
Como assim, Hessel, tratar os planos desfocados como simplesmente fotografia arrojada?
Os planos desfocados não são meramente estéticos, são metáforas visuais que contam a história. Até acho que são usados em excesso, mas estão lá por uma razão evidente e não para dar um tom arrojado.
O filme é ótimo, a história é tocante, a fotografia e a trilha-sonora são belíssimas. Sai da sala louco pra ler o livro e querendo saber mais desse conflito ocorrido no Brasil. Já li por aí que o livro é documental e mais abrangente que o filme, que é mais emocional e se foca em uma pequena comunidade, mas valeu pra contar uma história ficcional baseada num evento real.
E foi legal que na minha sessão estavam presentes descendentes de japoneses, alguns até mais idosos, que podem ter vivido essa época, e observei em seus semblantes que ficaram bem emocionados com o que assistiram.



sem avatar joel (30/08/2012 19:12:54)   37 0
"a la Kurosawa?" Acho q o diretor não teria toda essa audácia!
Esse é um filme muito bom! Eu recomendo!



paulo murilo paulo murilo (29/08/2012 20:28:06)   52 0
Como é bom ler comentários inteligentes aqui no omelete!

Nota 10 para o material de divulgação do filme que é de primeira, heim! Belos cartazes!



sem avatar Lis (24/08/2012 11:05:16)   0 0
Não concordo nem um pouco com a crítica do omelete.

Esse filme é muito bom!

Os atores dão um show de interpretação e fazem vc se apegar aos personagens.

Ele mexe muito com as nossas emoções, do começo ao fim do filme.

Fala sobre amor, família, fanatismo, honra, diginidade, defender seus ideiais, aceitar as consequências dos seus próprios atos, etc

Fora que é baseado em fatos reais, o que faz com que a gente pense mais ainda na história!



Diego Calixto Diego Calixto (21/08/2012 13:51:48)   4 0
Roteiro e enquadramento... e a trilha sonora, os atores, etc...



Glenda Glenda (20/08/2012 12:01:36)   98 0
Irei assistir a este filme independente da crítica, porém gostaria de saber se alguém que assistiu gostou?

Favor me responder, um abraço.



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Quaker Quaker (18/08/2012 13:41:47)   141 2
Não gosto de reclamar mas, caramba, que crítica mais capenga.



LEO LEO (17/08/2012 22:36:14)   5 1
Respondendo o que a maioria aqui veio saber; Sim, o filme é muito bom e vale apena assistir mesmo aqueles que já leram o livro. As atuações são brilhantes e o roteiro é maravilhoso.
Eu geralmente entendo as criticas do do Sr. Hessel, mesmo aquelas que não concordo, mas achei que essa foi feita com uma certa preguiça.


sem avatar Lis (24/08/2012 11:21:20)   0 0
Concordo! O filme é muito bom e vale a pena ser assistido.


Renan Renan (17/08/2012 20:12:43)   2286 1
Com todo o respeito, mas o Hessel ja pode ser colocado ao lado do Rubens Ewald Filho, Isabela Boscov e Zé Wilker.



Pinto Pinto (17/08/2012 14:17:32)   203 1
Putz, eu quando vi uma matéria sobre a Shindo Renmei no Fantástico séculos atrás, logo de cara pensei: "Caraca, isso dá um filme!"

E isso é algo que só aconteceu no Brasil. Era um projeto que tinha em mente pro futuro. Mas com minha velocidade tartaruga manca, perdi a vez.

Ainda assim, tenho interesse em checar o filme e ver se deixo baixo ou ainda o considere para um futuro filme (já li o livro de Morais quando tava na faculdade e criei um enredo, mas sem detalhar em um roteiro).

E realmente, tenho que concordar com a galera (as vezes eu defendo o Hessel), a história que é boa, cadê?



@erikoli @erikoli (17/08/2012 13:53:01)   12 2
Hessel,

Favor analisar o roteiro do filme.

Grato se o fizer!



Lucas Lucas (17/08/2012 13:19:54)   4593 4
2 ovos por causa do enquadramento de câmera ? Não deveriam ser avaliadas outras coisas do filme, como principalmente o roteiro ?



Carolina Carolina (17/08/2012 11:33:05)   476 2
Estou LOUCA pra ver esse filme (tenho o livro) e certamente não será uma crítica tão mal embasada quanto essa que me fará desistir disso. 2 ovos por causa dos enquadramentos da câmera? Ora faça-me o favor, né???



sem avatar Leonardo (17/08/2012 10:18:36)   -7 2
Vi esse filme no lançamento, no finado Festival de Paulínia. Foram tantas as coisas positivas que me chamaram a atenção ...
Em primeiro lugar, é uma adaptação de obra literária que - coisa rara - enriquece o material original com o desenvolvimento de histórias veladas (tive o prazer de conversar com o autor Fernando Morais que também compartilhou dessa opinião - ele também foi consultor da adaptação)
Vicente também acertou a mão no desenvolvimento das várias tramas paralelas. Não existe personagem pouco explorado ou desmotivado o que, para mim, é um dos pecados de várias produções nacionais recentes.
Enfim, vi ali coisas que valiam muito mais uma crítica do que movimento de câmera. Hessel mais uma vez peca pelo hermetismo e a gente fica na mão, sem saber se o filme vale ou não o ingresso, o que no fim é o que nos motiva a buscar uma crítica cinematográfica.


sem avatar Lis (24/08/2012 11:23:44)   0 0
Concordo.
As atuações são excelentes! O olhar dos atores conseguem traduzir o sentimento dos personagens.

O roteiro é muito bom e o final é inesperado.

O filme retrata um fato que aconteceu de uma forma muito comovente.


Satantango Satantango (17/08/2012 09:55:38)   193 0
Esse verei no cinema.



Marcel Marcel (16/08/2012 23:04:50)   32 8
Uma coisa que me frustra nas críticas do Hessel é que toda vez que as leio me sinto um idiota. Será que eu, como espectador (não como estudante de cinema), posso tirar algum proveito dessa “crítica”? Tenho de citar o colega Marcos: para quem você, Hessel, escreve afinal?

Sou professor de língua portuguesa, mestrado, atuo na educação de nível médio e superior há mais de 10 anos e, ainda assim, sou capaz de fazer uma crítica literária palatável à maioria dos leitores, ou seja, uma crítica ÚTIL. Há o momento para lançar mão de vocabulário técnico e especificidades, assim como há o de universalizar o texto.

Uma pena ler uma crítica (que deve ter dado algum trabalho para ser feita) ser tão exclusivista e pouco proveitosa para o público.


Marcel Marcel (17/08/2012 00:22:41)   32 1
Desconsiderar o “ser” no último parágrafo – a maldição de mostrar seu título é ser escravo da Norma.


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Lucas Lucas (16/08/2012 22:14:02)   5 0
Ehhh o Hessel tem críticas bem tendenciosas uma vez que este filme recebeu nota 9,5 do imdb, eu sei e compreendo q as opniões e concepções dependem muito como cada crítico abordou o filme, mas sabemos bem q o imdb é um site com crítica bem mais conceituado, mas independente da opnião do Hessel ou do imdb não me inflencio nem por um, nem por outro, sempre vou conferir



sem avatar Rafael (16/08/2012 21:55:20)   7 3
E a história, Hessel? É boa? É um filmes que pode ser assistido por quem não leu o livro?


sem avatar Lis (24/08/2012 11:13:11)   0 0
Eu não li o livro e amei o filme. Pode ir tranquilo que dá para entender tudo!


Aline Aline (16/08/2012 20:54:13)   287 0
Que pena esse filme parecia ser bom. mas penso em conferi-lo do mesmo jeito. Gosto desse tipo de história.


sem avatar Lis (24/08/2012 11:12:26)   0 0
Por favor, assista sim e tire suas próprias conclusões, pois eu e todo mundo que assitiu comigo amou o filme.



M. Galego M. Galego (16/08/2012 20:53:10)   124 5
Em suma. O filme recebeu dois ovos porque o Hessel não gostou do enquadramento da câmera, foi isso?


André André (16/08/2012 21:27:35)   1396 3
É um dos problemas das críticas do Hessel, basta o filme ter uma coisa que ele não gosta e essa coisa é multiplicada por 100, parecendo ser bem pior do que realmente é.

sem avatar Marcos (16/08/2012 21:30:53)   159 3
Deve ser.
Cada vez entendo menos o que o Hessel escreve.
Às vezes me pergunto: pra quem ele escreve afinal?



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