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Crítica: À Deriva

Depois de Nina e O Cheiro do Ralo, Heitor Dhalia muda de rumo com um filme de formação

Marcelo Hessel
30 de Julho de 2009

À Deriva

À Deriva

À Deriva
Brasil , 2009 - 103
Drama

Direção:
Heitor Dhalia

Roteiro:
Heitor Dhalia

Elenco:
Laura Neiva, Vincent Cassel, Débora Bloch, Camilla Belle, Cauã Reymond, Gregório Duvivier

Bom
à deriva
à deriva

Peço licença, antes de mais nada, para reprisar um trecho da crítica de Stella, filme francês que estreou no Brasil em junho deste ano.

Lá eu dizia que o cinema latino-americano - particularmente em filmes como o brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o chileno Valentín, o mexicano E Sua Mãe Também, o argentino Kamchatka ou o uruguaio Acne, entre muitos outros - abraçava com gosto o subgênero conhecido em inglês como coming-of-age, originado da veia literária do romance de formação, surgida no século 19. À Deriva é mais um deles.

São histórias que tentam resumir, normalmente em um evento marcante da infância ou da adolescência, os caminhos de caráter e comportamento que personagens tomarão para o resto de suas vidas. Daí o termo chegar-da-idade. No terceiro longa-metragem de Heitor Dhalia (Nina, O Cheiro do Ralo), quem passa por esse processo é a bela Filipa (a estreante Laura Neiva), de 14 anos.

Durante as férias da família em Búzios, ao lado do pai escritor (Vincent Cassel) e da mãe com tendência ao alcoolismo (Débora Bloch), Filipa deixará a inocência para ingressar na vida adulta. Para ficar no exemplo mais próximo, o de Stella, há nos dois filmes traços em comum: o fim da ingenuidade (a filha acompanha como um adultério quebra a harmonia familiar), a ânsia por se impor (brincar de se vestir como adulta, flertar sem compromisso com garotos) e a presença de uma arma de fogo como emblema máximo da violência de crescer.

Dhalia trabalha, no fim das contas, com situações clássicas. O que o seu filme tem de particular é a sensualidade - ou, já que estamos reduzindo um pouco a questão em termos geográficos, o que o seu filme tem de único é a famosa brasilidade. Filipa é menina em corpo de adulta. A câmera do diretor de fotografia Ricardo Della Rosa desde a primeira cena cola em Laura Neiva, e não a perde mais de vista, nem submersa na piscina. A descoberta do sexo é momento essencial na vida de todo mundo, afinal, e À Deriva - nem que seja só por plasticidade - venera corpos ao sol sem se envergonhar.

A opção pela paisagem de Búzios está em sintonia com essa estética: o cinza escuro áspero das pedras em contraste com o liso suado da pele e os troncos retorcidos das árvores se confundindo com as curvas da puberdade. Dhalia não se sai bem na direção de cenas de interior (Cassel parece mal dirigido, está sempre saindo pelos lados do enquadramento, como se transitasse num proscênio), mas compensa nas externas na praia. Pra extrair beleza do litoral é só não errar na escolha do filtro, convenhamos.

Longe de revolucioná-lo, À Deriva adiciona ao gênero um pouco de bronzeado. Para quem vem, como Dhalia, de dois filmes misantropos, tentar agora achar alguma humanidade nos personagens já é uma evolução.

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Comentários (2)

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Jota Jota (14/06/2011 03:06:37)   18 0
Puta filmaço!



sem avatar Luis (12/05/2011 15:29:08)   0 0
Vocês fazem o comparativo com Stella, mas qual não foi minha surpresa ao assistir Chuva de Verão recentemente? Filme Neozeolandes antigo e que em todos os aspectos anda paralelamente ao brasileiro. Igualmente amparado na beleza das paisagens e no sombrio relacionamento dos pais, o filme só vai além na dureza do desenvolvimento da sexualidade da garota com consequencias trágicas.
http://www.omelete.com.br/cinema/ichuva-de-veraoi/

abs!




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