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Crítica: Coco Antes de Chanel

Uma bem vestida história da carochinha

Eduardo Viveiros
27 de Outubro de 2009

Coco Antes de Chanel

Coco Antes de Chanel

Coco Avant Chanel
França , 2009 - 105
Drama

Direção:
Anne Fontaine

Roteiro:
Anne Fontaine, Camille Fontaine

Elenco:
Audrey Tautou, Benoît Poelvoorde, Alessandro Nivola, Marie Gillain, Emmanuelle Devos, Régis Royer

Regular
Coco Antes de Chanel
Coco Antes de Chanel

O que você sabe sobre Coco Chanel? Se não tiver curiosidade por estilistas nem recebeu criação francesa, onde a moda é patrimônio nacional, provavelmente ligará o nome a um perfume, uma bolsa ou a um corte de cabelo. Ou ainda à figura vaga de uma estilista imponente e com fama de importante - que você não sabe explicar exatamente de onde vem.

Mas sua importância não é gratuita, nem restrita a iniciados. Trabalhando com moda a partir dos anos 1910, Chanel construiu um império e revolucionou o pensamento do século XX. A estilista liberou as mulheres da silhueta firme e conservadora de então, marcada pelo corselete, e introduziu roupas inspiradas no vestuário masculino. Uma explicação simplificada, mas que dá o tom da quebra de conceitos que ela provocou.

Não espere, porém, nenhum escândalo de Coco Antes de Chanel (Coco Avant Chanel, 2009), novo filme de Anne Fontaine. Como o título promete, o enredo enfoca os anos pré-império da moda da protagonista. Quem está ali, retratada por Audrey Tautou, não é a poderosa estilista. E, sim, a moça órfã e de família humilde, que costura de dia e canta em cabarés de noite.

É nesse meio tempo que Gabrielle, seu nome real, tem seus primeiros (de muitos) romances poderosos e ganha seu acesso à alta roda parisiense. Primeiro através de Étienne Balsan, com quem constrói uma relação esquisita de submissão às avessas. Em seguida vem "Boy" Capel, amigo de Balsan, que se torna seu grande amor e ajuda Chanel a transformar seu hobby de criação de chapéus no embrião da maison que conhecemos hoje.

O figurino, como é de se esperar, é bem cuidado e dá o tom sutil na evolução de pensamento da personagem. Vale destaque também a caracterização de Tautou, que consegue reproduzir a carranca ranzinza de Chanel, com o cigarro na boca caída. Nada tão marcante quanto Marion Cotillard em Piaf, mas funciona. E, infelizmente, é uma das poucas coisas que realmente funcionam.

De um ícone francês para outro, a comparação com Piaf é válida. Apesar de mergulhado em sentimentalismo, a biografia da cantora cumpre, com louvor, a missão de apresentar sua história do começo ao fim. Coco Antes de Chanel, por outro lado, não consegue nem mesmo manipular as emoções do espectador.

Chanel, pobrezinha, ganhou uma biografia insossa, que não vai, nem vem. É apenas um filme OK, que não conquista quem não está por dentro da história pós-cenas finais. A estilista é reduzida a uma mulher de romances, que soube tirar proveito dos seus homens. Suas motivações e personalidade avant garde ficam para fora, mostrando uma Chanel rasa e entediante.

Assim, limando as arestas mais polêmicas, Coco Antes de Chanel serve para uma campanha velada de limpeza da reputação da estilista para os novos tempos politicamente corretos. Omite-se cada vez mais seus movimentos mais polêmicos. Como seu envolvimento com nazistas, que lhe rendeu uma prisão por crimes de guerra, um exílio de uma década e o ódio dos franceses. Tudo isso vai para sob o tapete, e a biografia da estilista ganha, cada vez mais, ares de história da carochinha. Uma carochinha muito bem vestida, aliás.

Assista aos clipes do filme
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Comentários (1)

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sem avatar Valdeci (26/07/2010 18:14:42)   0 0
Como o próprio nome indica, o filme trata de contar-nos a história de Gabrielle Bonheur Chanel antes desta figurinista de talento ser mundialmente conhecida por Coco Chanel. Mas este talento todo só conheceríamos tempos depois. Poderíamos supor que esta escolha deva-se ao fato da produção querer deixar de lado a fama propriamente dita da estilista bem como suas relações, prá lá de suspeitas, com o nazismo e seu colaboracionismo à ocupação Alemã na França na Segunda Guerra. Seu envolvimento com oficiais nazistas, seus inúmeros amantes, seus instintos de mulher revolucionária e as motivações que a levaram a ser um ícone, não só de moda, mas de liberação das “amarras” do figurino feminino estão de fora. Ou foram tratados de forma muito simplista e de maneira a tornar esta Coco Chanel mais como um produto do que como ser humano.
Mas vamos então analisar a “história” que nos conta o filme Coco Antes de Chanel dirigido por Anne Fontaine já que foi isto que o filme se propôs a retratar. Gabrielle (Audrey Tautou) é uma menina que fora criada e educada em um educandário. Anos depois sobrevive como mera costureira fazendo bainhas e pequenos consertos de roupas. À noite, para arrecadar mais alguns trocados, dedica-se a ser cantora em bordeis. Neste ambiente conhece um homem de muitas posses chamado Étienne Balsan que a introduz no mundo das pessoas ricas, elegantes e com ele vai ter um relacionamento tumultuado e, acima de tudo, vai observando os figurinos “escandalosamente suntuosos” destas senhoras. Percebe que as mulheres (e ela própria) vivem “amarradas” em seus espartilhos para manterem a cintura fina e seus vestidos que varrem o chão impedido seus movimentos livres e espontâneos. Seu primeiro movimento estilista surge em criar chapéus femininos mais discretos sem plumas, fitas exuberantes e toda aquela parnafenália de ostentação que fazem com que as mulheres usem uma verdadeira árvore de natal sobre as cabeças. Em seguida conhece "Boy" Capel, amigo de Balsan que lhe patrocina seu empreendimento na criação de chapéus e dá-lhe ainda liberdade de criação. Surge então seu segundo movimento de dispensar os espartilhos e libertar as mulheres das amarras e dar-lhes liberdade de movimento. Introduz ainda a calça dos homens ao guarda roupa feminino. Revoluciona assim a moda vigente de ostentação para uma moda mais discreta, mas elegante. Seu “pretinho básico” e sua filosofia de “mais é menos” ganha força entre algumas mulheres e o sucesso começa a acontecer. Tempos depois a casa Chanel surge como ícone da moda feminina moderna com seu estilo único, despojado e elegante.
Audrey Tautou está brilhante no papel de Coco Chanel e a Direção de Arte e Figurinos deram um show de competência. Pena que o filme deixou de lado a personalidade forte de Coco Chanel para centrar-se apenas no lado “bom” da mulher. Vamos considerar então esta produção como a primeira parte da biografia desta mulher revolucionária e quem sabe sejamos brindados com uma produção que retrate toda a personalidade e o caráter desta grande senhora. Afinal, deu para vislumbrar neste filme que existem outras tantas perspectivas de se contar história de Chanel. Quem sabe um filme com o título de COCO CHANEL para que o seu público possa admirá-la na sua amplitude. Com seus defeitos e suas virtudes. Que eram muitas. De ambos os lados.

Meu blog: http://maisde140caracteres.wordpress.com




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