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Crítica: O Amor nos Tempos do Cólera

Faltam entranhas à adaptação do belo romance de Gabriel García Márquez

Érico Borgo
24 de Dezembro de 2007

O Amor nos Tempos do Cólera

O Amor nos Tempos do Cólera

Love in the Times of Cholera
EUA , 2007 - 138
Romance

Direção:
Mike Newell

Roteiro:
Ronald Harwood, baseado no livro de Gabriel García Márquez

Elenco:
Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, John Leguizamo, Benjamin Bratt, Catalina Sandino Moreno, Liev Schreiber, Fernanda Montenegro

Bom
Amor nos Tempos do Cólera
Amor nos Tempos do Cólera
Amor nos Tempos do Cólera

Quando li pela primeira vez O Amor nos Tempos do Cólera, um amigo que me emprestou o romance avisou categórico: "Cem Anos de Solidão é incrível, mas o próprio Gabriel García Márquez disse que este é o livro que ele 'escreveu com as entranhas'".

Se o colombiano prêmio Nobel de literatura realmente declarou isso ou não, não sei - e a história é boa demais para ser desmentida por uma eventual busca no Google. Gosto dela assim. De qualquer forma, o que falta ao filme que adapta o livro é justamente isso... "entranhas".

Mike Newell (O sorriso de Mona Lisa, Harry Potter e o cálice de fogo) é um diretor razoável, mas a passagem da apaixonada obra, supostamente inspirado pela história real do amor dos pais do escritor, às telonas é burocrática. "World Movie" demais. Talvez até assustada com a responsabilidade de transformar um dos maiores romances de todos os tempos em filme.

Numa primeira análise, salva-se a fotografia de Affonso Beato, que, como já era esperado, é linda, brilhante, com uma reconstituição de época competente (as tomadas externas de Cartagena são especialmente belas). Mas mesmo ela cai no lugar-comum dos papagaios, bananas e trepadeiras. Coisa pra inglês ver. Literalmente. Afinal, o filme é todo falado em "inglês exótico", com sotaque carregado, em detrimento do espanhol - língua falada por boa parte do elenco, como John Leguizamo (Terra dos Mortos), Hector Elizondo (O Diário da Princesa 2), Benjamin Bratt (O lenhador) e Catalina Sandino Moreno (Maria cheia de graça), todos em papéis secundários. E mesmo quem não fala espanhol tem nas línguas latinas seu idioma, como a brasileira Fernanda Montenegro (Casa de Areia), que consegue brilhar em algumas pequenas cenas como a mãe do personagem principal. Espanhol mesmo só na decente trilha sonora, especialmente composta pela conterrânea de Garcia Márquez Shakira, num tom completamente distinto de sua obra pop/rock habitual.

No papel do casal de protagonistas - Fermina Daza, amor perdido do apaixonado Florentino Ariza, que dedica 50 anos de sua vida a resgatá-la - estão Javier Bardem (Segunda-feira ao Sol) e a italiana Giovanna Mezzogiorno (O último beijo). A atriz não faz feio, convence em todas as fases da vida da personagem. Mas Bardem, pela primeira vez em sua carreira, parece deslocado, um pouco constrangido até. O homenzarrão que fez chorar em Mar adentro, que assusta em Onde os Fracos Não Têm Vez e causa repulsa em Sombras de Goya, aqui simplesmente não encontra o tom. O choro é fingido, o alento do sexo com estranhas é mal explorado e a dor de amor não é sentida, o que tira a força de todo o filme. O amor, força motriz da história, dessa forma parece mero capricho.

Garcia Márquez relutou por anos em ceder os direitos para a adaptação. Foi finalmente convencido depois dos produtores jurarem fidelidade à obra. Mas fidelidade em Hollywood não significa necessariamente entendimento à proposta. A adaptação de Ronald Harwood (O Pianista) mantém os elementos principais (supostamente o próprio Márquez revisou o texto) mas a falta de personalidade e sensibilidade do diretor limou todas as sutilezas, o erotismo, a trama intrincada e a profundidade dos personagens. O resultado é um mingauzinho leve... bem mastigadinho, coisa pra quem não tem entranhas mesmo.

Assista a clipes do filme


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