Scott Pilgrim versus the World
EUA, Inglaterra, Canadá
, 2010
- 112 min.
Ação /
Comédia
Direção:
Edgar Wright
Roteiro:
Edgar Wright, Michael Bacall, Brian Lee O'Malley
Elenco:
Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Brandon Routh, Jason Schwartzman, Aubrey Plaza, Kieran Culkin, Brie Larson, Mae Whitman, Ellen Wong, Anna Kendrick, Mark Webber, Alison Pill, Satya Bhabha
Para o quadrinista Bryan Lee O'Malley e o cineasta Edgar Wright, a vida acontece em fases. Mas não aquelas fases das aulas de biologia, infância, adolescência etc. Em Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim Versus the World, 2010), a vida acontece em fases como as dos videogames.
É curioso que a melhor adaptação já feita para o cinema de um videogame não tenha existido previamente como um jogo. Wright leva a estética dos games às telas, traduzindo em cores e gráficos toda uma geração de títulos clássicos em uma verdadeira celebração do "8 bits". Scott Pilgrim (Michael Cera, fazendo a única coisa que sabe) é inocente como Mario, luta como Ryu e tem mais corações que Link. Parte do visual criado aproveita também a origem de Scott Pilgrim nos quadrinhos, incluindo onomatopeias, recordatórios em quadro e influências de mangá.
Mas é explorando as barreiras da linguagem do cinema, com raro e frenético entusiasmo, que o filme realmente explode na tela. Wright pensa o "cinema em quadrinhos" experimentando na edição, velocíssima, e dando à produção algumas das elipses mais chocantes e concisas do cinema desde que Fritz Lang se aventurou pela interseção de tempos. É curioso notar também como a manipulação de espaço e tempo para contar uma história, interesse fundamental da profissão de montador, é aqui ferramenta, mise en scène e tema, com Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), a protagonista e interesse romântico do herói Scott Pilgrim, capaz de encontrar e utilizar "buracos de minhoca" para se locomover, algo que ela usa de forma tão cotidiana, como entregadora da loja canadense da Amazon.
Mais que um interesse romântico, Ramona é verdadeiro MacGuffin, o objeto de desejo que, segundo o termo cunhado por Alfred Hitchcock, direciona os esforços dos protagonistas, que se sacrificam para obtê-los. Na trama, Scott Pilgrim é movido pela presença da enigmática Ramona e decide enfrentar os "sete ex-namorados do mal" da moça mesmo sem saber quem exatamente ela é.
Como nos videogames, cada ex-namorado é uma fase a ser superada. Como na vida real, cada memória do outro é uma bagagem a ser compreendida pelo par. E Scott parte de sua "vidinha preciosa e simples", de moleque sem ambição, em direção à superação, ao amadurecimento. O prêmio óbvio, a princesa, é a própria Ramona. A vida adulta é a consequência dos pontos de experiência coletados pelo caminho.
Confunde-se a história simples e bem-humorada com "infantilizada". Preguiça, desconhecimento ou puro preconceito, não importa. Os sentimentos e as metafóricas situações em Scott Pilgrim são absolutamente reais, algo que o cinema de gêneros com apelo pop teima recentemente em deixar em segundo plano. E daí se o protagonista é capaz de feitos incríveis e trafega por mundos fantásticos? Se o amor que ele diz sentir não é demonstrado na tela, corre-se o risco de parecer tão empolgante quanto uma cópia em alta definição da Mona Lisa.
Scott Pilgrim Contra o Mundo é, assim, um épico pós-moderno para a geração criada dentro de casa. Uma imperdível celebração da cultura pop e dos relacionamentos complicados.
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