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Histórias Que Só Existem Quando Lembradas | Crítica

Toda narrativa é antes de mais nada uma fantasmagoria

Marcelo Hessel
05 de Julho de 2012

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas

Brasil / Argentina / França , 2011 - 98 minutos
Drama

Direção:
Julia Murat

Roteiro:
Julia Murat, Maria Clara Escobar, Felipe Sholl

Elenco:
Sonia Guedes, Lisa E. Fávero, Luiz Serra, Ricardo Merkin, Antônio dos Santos, Nelson Justiniano, Maria Aparecida Campos, Manoelina dos Santos, Evanilde Souza, Julião Rosa, Elias dos Santos, Pedro Igreja

Ótimo
histórias que só existem quando lembradas
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Das coisas normalmente associadas à cultura da nostalgia dos hipsters, como a vitrola e a gravata borboleta, nada é mais "antiquado" do que uma câmera pinhole. Essa máquina fotográfica sem lente, composta basicamente de um obturador (o "buraco de alfinete" do nome em inglês) aberto numa câmara escura, emula os primórdios do processo fotográfico, quando as pessoas ainda temiam que tirar retratos podia roubar-lhes a alma.

Em Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, a mochileira Rita (Lisa E. Fávero) chega ao vilarejo fictício de Jotuomba, no Vale do Paraíba, com seu iPod, sua câmera digital e algumas latas vazias transformadas em pinholes. Jotuomba é um pedaço ressecado de terra à margem do que foi uma ferrovia. Seus habitantes assam pães, jogam malha e vão à missa como se tivessem com o tempo um acordo de não-agressão, como se o simples ato de pensar ou falar do tempo (e não da meteorologia...) pudesse acabar com a sobrevida de Jotuomba. É por isso que na parede da igreja, anexa ao cemitério, os moradores pararam de registrar os nomes dos mortos.

Acontece que, em Jotuomba, Rita encontra aquilo que o tipo de fotografia de lenta exposição da pinhole sempre almeja registrar: a passagem do tempo. Não é só a chegada da jovem mochileira que desestabiliza a rotina dos idosos do vale; é o contato com o registro em imagens da sua própria velhice que transforma os personagens de Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, principalmente Madalena (numa interpretação muito marcante da atriz Sonia Guedes).

O filme da diretora Julia Murat, estreante em longas de ficção, lida de forma bastante sensível com os diferentes pontos de vista de Madalena e Rita. A janela do filme, inicialmente 2,35:1, os close-ups e os planos-detalhes vão se modificando dependendo de quem olha - os objetos enferrujados do armazém de Antonio (Luiz Serra), por exemplo, nós só percebemos que enferrujaram porque Rita em sua curiosidade os revela para nós, enquanto Madalena os vê no plano aberto, sem especificidades. Aos poucos, influenciada pela garota, a velha passa a ver também essas marcas do tempo (como os close-ups nos rostos dos demais personagens), e as reações de Madalena a essas revelações são profundamente tocantes.

Embora soem calculadas em excesso outras relações que o roteiro estabelece (o bebê que Madalena perdeu por causa de um fotógrafo, o momento solene demais da virada do LP), esses ruídos são menores dentro da atmosfera de imersão que Murat estabelece com seu diretor de fotografia, Lucio Bonelli. Toda narrativa é antes de mais nada uma fantasmagoria, e em Histórias Que Só Existem Quando Lembradas todo canto escuro se preenche com vultos de histórias. Do homem negro no breu da noite só enxergamos os olhos, mas esses olhos têm algo a contar - basta um espectador paciente, como a câmera "antiquada", para perceber.

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Comentários (9)

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Ricardo Ricardo (12/07/2012 23:29:47)   0 0
Pena que filmes como estes, que aprensentam tão bom conteúdo, perdem para os dramalhões e continuidades quase que infinitas de hollywood.



RicardoTR RicardoTR (06/07/2012 21:51:30)   287 0
Me interessei por esse filme, mas é praticamente impossível que ele apareça em algum cinema perto de onde eu moro... Com sorte eu encontro o DVD quando sair.



Yuri Yuri (05/07/2012 22:45:18)   17 0
Filmar o invisível. Jia Zang Ke, Lucrecia Martel, Apichatpong Weerasetakhul e agora Júlia Murat. O cinema nunca fi tão ousado. Maravilha.



Fernando Fernando (05/07/2012 21:07:53)   344 0
não tinha conhecimento desse filme,ainda bem que vi essa critica,pretendo conferir.



Ronny Ronny (05/07/2012 20:12:04)   20 0
de onde saiu esse filme?

tensa essa imagem ai



sem avatar Luiz Ricardo (05/07/2012 20:11:42)   5 1
Pode ser um filme interessante, realmente "bom", mas antes de abrir e ler a critica, sabia que seria o Hessel e que a "nota" seria boa, é a "cara" dele, enfim, Hessel, não faça mais criticas de Blockbuster não amiguinho, segue nessa linha, combina com vc e de certa forma nos incomoda bem menos...rs
mas o respeito, mesmo com essa mania de querer que todos of filme stenham embasamento intelectual ou filosofico, sendo a maioria, simples entretenimento e diversão..



Mario Mario (05/07/2012 19:24:52)   14 -1
Será que os filmes realizados com apoio financeiro estatal, através de incentivos ficais aos patrocinadores, estão tendo bom público? A sociedade, carente de atividades culturais, acaba desfrutando dessas inciativas sustentadas, pelo menos em parte, com nosso dinheiro?


sem avatar sara (05/07/2012 21:39:14)   4 2
Olha só, publico bom não sei. acho que sim, mas que tem cinemas passando esses filmes têm si. Eu sou do Rio de Janeiro, e moro em Botafogo (um bairro de classe média e tem tb a Comunidade Santa Marta) , e aqui tem dois cinemas Estação. Sempre passam filmes brasileiros, franceses, indies, tem do Woody Allen, Roman. Tem o Cinemark num shopping, q passa mais filmes blockbusters. Mas enfim,... tem cinemas passando esses filmes brasileiros sim. O problema é... filme brasileiro MEH. Quero ver um blockbuster. Daí as pessoas ficam horas na fila para assistir um blockbuster que na maioria das vezes nem é bom. Aquele Xingu, nem teve publico, e o filme é maravilhoso!
Carente de atividades culturais, acho que tem menos coisas aqui no Rio do que em São Paulo, mas mesmo assim têm. E sabe, as pessoas simplesmente não assistem. Outro dia eu assisti um filme da Lucia Murat, e a sala estava praticamente vazia, umas 15 pessoas.
Enfim, eu quero assistir esse filme, eu vi o trailer e vi que esse filme rodou o mundo em festivais internacionais. Acho q é muito bom.

Alan Alan (10/07/2012 13:25:13)   2 0
O pior, Mario, não é apenas o público não desfrutar de iniciativas sustentadas. O pior é o tempo que essas iniciativas demoram pra sair, a abnegação das pessoas por trás delas e - ao fim - a falta de mercado. E filmes como esse - um projeto que demorou mais de 10 anos da ideia à distribuição - acabam dependendo desse pequeno retorno pra se manter nas salas. Porque se não tem público, a maioria das salas não dá espaço. Fui a uma palestra da Júlia Murat sobre o filme e só a trajetória dela já valeria que cada um fosse ver esse filme (que não conseguiu ir pro cinema apenas com dinheiro brasileiro. Precisou de investimento de fora tb. pra existir).



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