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O Sonho de Cassandra

Woody Allen constrói em Londres mais um suspense cheio de drama

Marcelo Forlani
30 de Abril de 2008

O Sonho de Cassandra

O Sonho de Cassandra

Cassandra's Dream
EUA / Reino Unidos , 2007 - 108
Drama / Suspense

Direção:
Woody Allen

Roteiro:
Woody Allen

Elenco:
Colin Farrell, Ewan McGregor, Tom Wilkinson, Hayley Atwell, Clare Higgins

Bom
O Sonho de Cassandra
O Sonho de Cassandra

Woddy Allen é mais conhecido pelo seu lado cômico e por isso mesmo surpreendeu quando fez Ponto Final - Match Point (2005), um suspense dramático que envolve adultério, assassinato e a Londres que ele passou a adotar depois de toda uma carreira filmada em Nova York. Seu projeto seguinte, Scoop - O Grande Furo (2006) continuava na capital inglesa, mas voltando ao humor. Agora chega a vez de O Sonho de Cassandra (Cassandra's Dream, 2007), terceiro filme rodado em Londres e novamente um suspense dramático. E põe dramático nisso!

Para os papéis principais, Allen chamou o escocês Ewan McGregor e o irlandês Colin Farrell para viverem dois irmãos bastante diferentes quanto a ambições, mas muito unidos pelos laços familiares que carregam. Ian (McGregor), o mais velho, trabalha a contragosto no restaurante da família, ajudando a gerenciar o lugar enquanto o pai se recupera de um problema de saúde, sonhando com o dia em que vai ter seu próprio negócio. Terry (Farrel), o mais novo, é mais humilde nos seus sonhos. Trabalha em uma oficina de automóveis caríssimos, tem uma namorada firme e um vício: adora jogar.

Na primeira cena, os dois irmãos aparecem em um porto. Estão ali para comprar um barco velho, mas que promete levá-los de novo ao mar, aos felizes dias de uma juventude que já acabou. O preço inicial é além do que os dois têm economizado. Mas antes que consigam desistir, uma maré de sorte atinge as apostas de Terry, que não consegue mais perder. Aliás, o barco é batizado O Sonho de Cassandra em homenagem ao cachorro vencedor de uma corrida, que rendeu a grana necessária para fechar o negócio.

Arrotando caviar depois de comer mortadela, Ian vai se envolvendo com a linda atriz Angela Stark (Hayley Atwell). Para ela, Ian é um empresário já bem sucedido, que anda para cima e para baixo em pomposos carros - que pega emprestado na oficina do irmão. Enquanto o mais velho vai se afundando em mentiras, Terry entra numa maré de azar e se afunda em dívidas. O sonho dos dois vai, pouco a pouco, se tornando um pesadelo.

Para livrá-los dos seus problemas, volta à cidade para uma rápida temporada o tio Howard (Tom Wilkinson), médico e empresário com clínicas em vários lugares do mundo. Idolatrado pelos "meninos" e pela mãe deles (Clare Higgins), Howard também tem os seus problemas e apela para o "uma mão lava a outra", e acaba envolvendo os dois irmãos em uma trama que tem tudo para acabar em tragédia.

É esta última parte, justamente a mais densa, que faz O Sonho de Cassandra (o filme e o barco) afundar o suficiente para perder um pouco de perfomance - sem jamais naufragar. Embora os dois atores principais estejam ótimos (principalmente Farrel, que já há algum tempo estava devendo), Allen pesa demais na mão, principalmente quando abruptamente acaba tudo o que vinha construindo nos últimos 100 minutos. É como acordar de repente de um sonho que estava incomodando. Um alívio, mas que deixa memórias difíceis de apagar da mente e que por isso mesmo não deve agradar a todos.

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Comentários (1)

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sem avatar Valdeci (05/08/2010 16:32:00)   -1 0
Woody Allen é, sem sombra de dúvida, um excelente roteirista, diretor e humorista. Seus filmes sempre surpreendem pela criatividade (ou seria genialidade?). Isso, genialidade! Acima de tudo pela grande capacidade de Allen em contar uma história de forma eficiente, emotiva e humana. Quem acompanha seus trabalhos cinematográficos (assim como eu) percebe que ele tem uma paixão pela mitologia grega, pelo suspense e é claro pela comédia existencialista onde o próprio Allen é o personagem hipocondríaco principal. Assim como em Poderosa Afrodite, a produção de O Sonho de Cassandra também possui elementos mitológicos e suas tragédias paralelas sobre ambição, riqueza, poder, pecado e morte. Um drama dentro de elementos cômicos. Bem ao estilo Woody Allen de filmar. Ao ver o cartaz do filme já se tem uma pista que alguma tragédia irá acontecer ao notarmos que uma listra amarela, ao estilo que a polícia utiliza para demarcar cenas criminosas, ultrapassa – de ponta a ponta – todo o cartaz. Sem contarmos é claro o título “premonitório” que nos remete ao personagem mitológico Cassandra (filha de Príamo, Rei de Tróia e Hécuba). Cassandra era tida como louca por fazer previsões trágicas e só transmitir notícias ruins ao povo. Como ninguém lhe dava crédito ou sequer acreditava nas suas trágicas previsões Tróia acabou destruída e o povo exterminado ou escravizado. Assim, o Cartaz do filme “O Sonho de Cassandra” nos avisa que uma tragédia está por vir. Mesmo com estas pistas somos levados, por um roteiro interessante, a conhecer os motivos que levaram os personagens a encontrarem seus destinos.
Ian (Ewan McGregor) é um cara que trabalha com o pai administrando um restaurante da família. Vive de aparências sonhando ser um homem de grandes posses dirigindo carrões caríssimos que pede emprestado da oficina mecânica onde trabalha seu irmão. Frequenta lugares badalados e desfila pelas redondezas com belas mulheres fingindo ser o que não é. Boa pinta, sempre bem vestido e uma lábia de encantar as moças do lugar. Quer entrar no ramo de hotéis na Califórnia, mas não tem um tostão furado nos bolsos. Seu irmão Terry (Colin Farrell) trabalha em uma oficina mecânica de carros de luxo. Também tem altos planos para o futuro, mas seu salário não cobre tais despesas. Assim, entre um jogo de pôquer, corrida de cachorros e outras tantas apostas, vai defendendo uns trocados a mais no fim do mês. Quando surge a oportunidade de comprar um pequeno barco os sonhos de grandeza tomam conta dos irmãos e os sonhos começam, aos poucos, tomarem ares de realidade. Mesmo que pequena tal aquisição meio que dá ânimo para que ambos possam aspirar a algo mais grandioso. Batizam o tal barco de O Sonho de Cassandra. Terry com sua compulsão pelo jogo acaba devendo mais do que pode pagar e a situação se complica (e muito) para esta família já tão endividada e de poucos recursos. A saída para tal enrascada é buscarem ajuda ao tio Howard (Tom Wilkinson) um milionário dono de clínicas de cirurgia plástica espalhada pelo mundo que está para chegar à cidade em uma visita familiar.
Ao pedirem um empréstimo ao milionário tio para pagarem suas dívidas e construírem seus castelos de sonhos Howard aceita ajudá-los desde que eles também possam fazer um “pequeno” favor em retribuição: Matar seu contador que está prestes a servir de testemunha em um caso que o levará a ruína. O que poderia ser a salvação da lavoura acaba por tornar-se um verdadeiro pesadelo. Como um pacto Mafioso para defenderem os interesses da família os irmãos resolvem aceitar o caso. O problema surge em como dar cabo de tal tarefa já que ambos, apesar dos pequenos golpes e trapaças, não são assassinos profissionais e morrem de medo das consequências e dos desdobramentos futuros por ato tão drástico e fatal. De qualquer forma seguem o plano de assassinar Martin Burns (Philip Davis) e assim conseguirem realizar seus planos financeiros e ajudar o tio milionário a não ser preso.
Evidente que tal assassinato requer certos cuidados e torná-lo uma realidade requer ainda mais preparo psicológico e logístico. Como executá-lo? E principalmente, como conviver com isso na consciência? Ian até que consegue digerir a idéia e executar o plano com mais naturalidade. Terry por outro lado aceita participar de tal plano, mas enfrenta grandes problemas de consciência e dilemas morais e éticos. Mas o plano segue firme e, após praticarem o crime, Terry resolve entregar-se à polícia para redimir-se de seu ato. A velha questão de Crime e Castigo... Começa então outro desdobramento na narrativa. Como fazer com que Terry desista desta loucura de incriminar a família e a si próprio? Causas e conseqüências. Toda a escolha tem seus desdobramentos e a consciência começa a pesar na mente conturbada de Terry. Ian que agora está apaixonado pela a atriz Angela Stark (Hayley Atwell) não pretende ver seu sonho desfeito e ter que viver atrás das grades. O destino está traçado e nem mesmo as previsões da mitológica Cassandra os livrará dos caminhos que terão que percorrer. Neste ponto Allen mostra um filme mais dramático e as atuações meio canastronas de Colin Farrell não prejudicam muito a narrativa. Apesar da reviravolta (um tanto quanto previsíveis como citei acima) o fim é abrupto como a ficar algo no ar ou argumentos ainda a serem explorados devidamente. De qualquer forma este é um filme de Woody Allen e por isso mesmo um filme que merece ser visto e apreciado.

Meu Blog: http://maisde140caracteres.wordpress.com




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