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A Separação | Crítica

Drama kafkiano de tribunal registra o Irã no limbo de suas mudanças de costumes

Marcelo Hessel
19 de Janeiro de 2012

A Separação

A Separação

Jodaeiye Nader az Simin
Irã , 2010 - 123 minutos
Drama

Direção:
Asghar Farhadi

Roteiro:
Asghar Farhadi

Elenco:
Peyman Moadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini

Ótimo
a separação
a separação
a separação

Tem diretor brasileiro que diz que gente rica não rende boas histórias, mas os filmes do iraniano Asghar Farhadi estão aí, ganhando espaço em festivais e premiações, para desmentir.

Os dois mais recentes, Procurando Elly e A Separação, não tratam de "gente rica" como estereótipo - a madame com o champanhe - mas de pessoas de classe alta, com seus anseios particulares, do melhor ensino para os filhos a viagens ao exterior. Que tiram dias para ir à praia, como os personagens de Procurando Elly, ou preocupam-se com seus livros numa mudança, como a protagonista de A Separação.

O que gera interesse nesses filmes de Farhadi é o choque da classe alta - em teoria, secularista e modernizada - com os costumes fundamentalistas da sociedade iraniana. Um choque que frequentemente expõe não só o conhecido atraso das leis do país como também uma hipocrisia de quem, novamente teoricamente, seria o lado mais progressista dessa equação, os "esclarecidos".

A separação que dá nome ao filme já começa praticamente consumada. Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi) estão diante de um juiz para acertar o divórcio; ela quer morar fora do Irã e levar sua filha, enquanto o marido insiste em ficar em Teerã para cuidar de seu pai idoso, que tem Alzheimer. O juiz nega o divórcio, pois não há, no seu entender, um fato suficientemente grave para justificar a separação.

Contar o que acontece depois - envolvendo uma empregada religiosa, a filha do casal e uma gravidez de risco - tiraria um pouco do peso do filme. Vale dizer apenas que a trama de A Separação retorna constantemente para a mesa de um juiz. Se em Procurando Elly a tensão crescente vem do desaparecimento de Elly, aqui o sufoco surge da repetição kafkiana de situações de tribunal.

Quando A Separação ganhou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, o ministro das relações exteriores do Irã alertou para o perigo de "dar prêmios valiosos a filmes cujo tema central é a pobreza e as dificuldades de um povo". São dois equívocos: primeiro, entender que a pobreza é o foco (Farhadi expõe mais desvios de caráter na classe alta do que na baixa); depois, confundir exploração das "dificuldades de um povo" com a análise das transformações sociais do Irã.

Transformações essas que, para nós, podem parecer trivialidades, como o fato de Simin e Nader mandarem a filha para o quarto ou a cozinha o tempo todo, enquanto discutem, e ela não atender (Farhadi enquadra a cena para mostrar que a menina permanece no ambiente). É provável que A Separação, ao contrário do grosso da produção iraniana atual, tenha sido muito bem recebido no Ocidente porque trata de uma história universal - o marido que se vê sozinho e, por orgulho, não reconhece que precisa da mulher -, a crise do patriarcado não respeita fronteiras, mas obviamente no Irã isso tem uma dimensão distinta.

No fim, o choque não é tanto entre estratos, mas entre dois momentos: o país que acreditava nos dogmas, numa predestinação social, e o país que hoje convive com a inevitabilidade da mudança, em que a cidadania se conquista diariamente. Cenas como a reconstituição do crime causam perplexidade porque são a materialização desse choque: a reconstituição em si se apoia numa "modernidade", a da análise objetiva da cena do crime, mas as mentiras escondidas pelos personagens - mentiras profundas, ancestrais - impedem qualquer objetividade.

Não por acaso, as mulheres de A Separação, quando choram, aparecem em cena já com a lágrima escorrida até o queixo - é um choro não por uma circunstância, mas por um estado estabelecido de coisas, um choro passado. Farhadi só filma um lágrima por inteiro, presente, quando é a adolescente que a chora. Tragicamente é sobre ela que recai a responsabilidade de impedir que o Irã permaneça nesse limbo aflitivo.

A Separação | Trailer legendado
A Separação | Cinemas e horários


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Comentários (8)

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G. brucew G. brucew (26/01/2013 21:12:45)   57 0
A forma como o filme prende a atenção sem usar um tiro, explosão ou qualquer outro artifício grandioso é impressionante, belíssimo filme.



É que me escapoliu.... É que me escapoliu.... (20/01/2012 09:42:03)   -5 0
Oscar só se for de filme estrangeiro, pq aposto que academia vai dar o Oscar para o AMANHECER....kkkkk...

sério, eles vão arrumar algum filmim americano (geralmente épico com algum deficiente ou alguma historia de superação) para dar o prêmio principal!!

MAs paciência, Oscar não quer dizer mais nada!!! Apenas uma festinha pra tchurminha das celebridades se divertirem!!

Ainda bem que não é no Brasil, pq ver a Preta Gil e entrando no tapete vermelho seria desesperador!! KKKK



Majin-Boo Majin-Boo (20/01/2012 05:35:43)   410 1

"Tem diretor brasileiro que diz que gente rica não rende boas histórias"

É só fazer o filme do Mulheres Ricas. Já pensou vai ser só: Heloooo e Ai que Loucura. É melhor não.






 Cristina Cristina (20/01/2012 00:21:23)   441 0
Li Criticas afiadíssimas sobre esse filme e fiquei interessada, aposto nele para o Oscar.



Pachecão Pachecão (19/01/2012 22:13:33)   68 1
Interessante a teoria do diretor de cinema que disse que gente rica não rende boas histórias.
Já os escritores de novelas dizem que tramas com pobres não rendem boas histórias, corroborando Joãzinho Trinta que dizia que só intelectual gosta de pobreza.

Eis uma boa tese para se desenvolver. Nos cinemas, única e exclusivamente a estética da miséria. Na tv a estética da riqueza. Dois extremos que nunca se cruzam no imaginário da "arte visual" brasileira.
Ruim para o espectador, péssimo para a arte em si.


sem avatar Gerson (20/01/2012 08:49:24)   1 1
Tenho uma ideia a respeito, Pachecão: o público dos cinemas, em sua maoiria, ainda é formado por classes A, B e talvez C; na contrapartida, o público da TV ainda é C, D e E (ao menos para TV aberta). Esses públicos buscam se reconhecer pelas diferenças: o que vejo na tela não sou eu. E quero saber como outros vivem. Mais ou menos por aí. Teoria do Espelho Invertido.


Nathanael Nathanael (19/01/2012 20:28:32)   19 0
Um dos melhores filmes de 2011!




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