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O Conselheiro do Crime | Crítica

Filme-ensaio de Cormac McCarthy e Ridley Scott descreve o choque de duas realidades em linha reta

Marcelo Hessel
24 de Outubro de 2013

O Conselheiro do Crime

O Conselheiro do Crime

The Counselor
EUA / Reino Unido , 2013 - 117 minutos
Suspense

Direção:
Ridley Scott

Roteiro:
Cormac McCarthy

Elenco:
Michael Fassbender, Javier Bardem, Cameron Diaz, Penélope Cruz, Brad Pitt, Rosie Perez, Cesar Aguirre, Daniel Holguín, Bruno Ganz, Toby Kebbell, Édgar Ramírez

Bom
conselheiro do crime
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Nos romances de fronteira do escritor Cormac McCarthy, como Meridiano de Sangue e Onde os Velhos Não têm Vez, as explosões de violência são uma forma de meditar sobre a morte, porque quando um evento moral se inicia, mesmo ao acaso, não há nada que impeça seu desfecho violento - tentar evitar essas explosões seria como tentar driblar a própria morte.

O Conselheiro do Crime, filme dirigido por Ridley Scott a partir de um roteiro original de McCarthy, funciona sob o mesmo raciocínio. O tal conselheiro é um advogado (Michael Fassbender) seduzido pelo extravagante Reiner (Javier Bardem) a entrar num negócio milionário de drogas que estão chegando ao Texas pela fronteira com Juárez, cidade mexicana com uma das maiores taxas de homicídio do mundo.

É curioso que chamem o personagem de conselheiro, porque quem mais recebe conselhos é justamente o advogado: todos avisam do perigo que é mexer com tráfico, cartéis, empresários exuberantes etc. A decisão do conselheiro - aceitar ou não uma participação na encomenda - é o evento moral que McCarthy coloca no caminho dos protagonistas, e o desfecho é de um fatalismo antevisto e esperado, desde o diálogo da primeira cena do filme.

O Conselheiro do Crime soa muito estranho para os padrões dos suspenses hollywoodianos porque o seu miolo não envolve viradas constantes de roteiro. McCarthy descreve o encontro de duas linhas retas rumo à ruína, e desconcerta o espectador o fato de, pelo caminho, termos pouco mais de meia-dúzia de monólogos sobre moral e perversão, cheios de gravidade, como se os personagens já estivessem, sem saber, conversando durante um funeral.

O elenco estrelado (Cameron Diaz dá um show) e a premissa de thriller talvez não sugiram, mas O Conselheiro do Crime é basicamente um filme-ensaio sobre o valor da morte e as decisões que levam a ela. Então boa parte da graça é identificar o que diferencia essas duas retas destinadas a se cruzar: os mandantes do golpe de um lado, com seus hobbies, seus diamantes e seus drinques, e os executores do golpe do outro, a gente suada da fronteira, anônimos de uma grande família cor de poeira, literalmente cobertos de fezes até a tampa.

McCarthy sempre foi conhecido pela sua capacidade de descrever um cenário, desde a origem geológica das rochas do deserto texano. O Conselheiro do Crime pode até dever em termos de ação, mas é um filme nitidamente mccarthyano no sentido em que pinta - sob o perfeccionismo cenográfico que caracteriza os filmes de Scott - com detalhes uma paisagem de tons tão distintos quanto aquela que divide os EUA e o México.

E ao espectador (a quem McCarthy obviamente entende que não tem contas a prestar) resta a desconfortável posição de testemunha da explosão de violência, como as pessoas borrifadas de sangue enquanto assistem a uma morte lenta no filme.

No mais, O Conselheiro do Crime daria uma ótima sessão dupla com o documentário Narco Cultura, que também compara a realidade em Juárez com as cidades americanas de população mestiça, ao Sul do país. Ambos os filmes ilustram bem como o mundo de mimos consumistas e mitos masculinos dos EUA (o gangsta rap no documentário, os veículos de grife e os garanhões de McCarthy/Scott) influencia o que acontece nos dois lados da fronteira.

O Conselheiro do Crime | Cinemas e horários



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Comentários (35)

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Zica das Almas Zica das Almas (24/08/2014 18:02:44)   389 0
SPOILER

Quando se vê o filme entende-se o cartaz que traz a Cameron no centro.



Bruno Bruno (08/04/2014 18:06:16)   0 0
A crítica está perfeita. Quem não está habituado com a obra de McCarthy dificilmente gostará do filme, que é bastante 'autoral'.



sem avatar Marcio (28/03/2014 23:27:36)   -7 0
Um filme com um grande diretor, um elenco refinado, um roteiro que quer nos mostrar o essencial e criticar a situação das drogas no México, mas se perde deixando de lado informações básicas e por isso acaba se perdendo.
Michael Fassbender é El consejero, advogado que tem como clientes pessoas de tendências ilícitas. Está noivo de Laura (Penélope Cruz) e quer dar o melhor para sua futura esposa. Para isso resolve entrar em uma transação de drogas para faturar mais e conseguir seu objetivo.
Para falar a verdade estou até agora (enquanto escrevo) tentando compor o confuso roteiro de Cormac McCarthy. Há filmes que deixam que você complete informações de acordo com o que, aos poucos, vai sendo passado. Neste caso não. O roteiro pode até lhe impulsionar para a frente, mas não explica muita coisa e no fim você vai entender o básico do filme, entender a história, mas não saberá explicar por exemplo como aquele personagem chegou à aquele outro. Então várias pontas ficam soltas e na hora que tentamos compor a história não conseguimos explicar muito. Com um roteiro assim, a montagem fica comprometida e acabamos, assim como o roteiro, soltos demais e sem termos muito compromisso com os personagens e seus dramas.
Com uma crítica ao que acontece atualmente no México, o filme nos mostra em detalhes a violência cometida pelos cartéis de drogas, seus métodos de tortura e sua implacável "justiça". Porém ao meu ver não chega a ser contundente como por exemplo o filme Heli (2013 - Amat Escalante) que nos mostra uma violência crua, sem filtros, sem piedade do espectador.
Um filme vago, que tenta passar uma lição de moral e criticar, mas acaba não conseguindo muita coisa principalmente por um roteiro solto demais.

http://embriagadospelocinema.blogspot.com.br/2014/03/critica-o-conselheiro-do-crime.html



Gleybson Gleybson (11/03/2014 08:51:40)   113 1
Tá ai gostei da crítica do Hessel, o filme é bom porém a atuação da Cameron Diaz é espetacular, vale a pena conferir.



Rodrigo Rodrigo (01/03/2014 11:13:50)   21 0
Nunca li nada do Cormac McCarthy e depois de ver esse filme nunca vou ler na resenha do filme em dvd fala sobre o aclamado escritor,de filme pornô talvez porque a cada duas palavras mencionadas no filme uma é sexo,filme totalmente confuso,mal construído,roteiro de principiante,me admira um elenco desse num filme tão ruim,um dos piores da história.



sem avatar Fabio (20/02/2014 01:21:39)   1 0
Mais que bosta de filme....um filme sem sentido sem moral sem lógica e chato pra caralhos...pra quem não assistiu vou dar uma dica ....o filme é uma merda....

quanto a critica do Hessel...mais uma vez cheia de eufemismo, dizendo que o filme é diferente isso e aquilo mas nunca diz que o filme é ruim...a velha escola dos críticos "diga sobre o lado positivo do filme mesmo que não tenha!"



Faake Faake (16/11/2013 00:05:20)   177 1
Filme fraquíssimo. No meio do filme várias pessoas saíram e ao final da sessão ouvi vários comentários tais como:
- "Nossa, que bost* de filme!"
- "Pq eu perdi meu tempo com isso?"

Tudo bem que seja um filme para um público específico (cinéfilos) que gostam de cinema, mas esse filme não me agradou. E olha que eu gosto muito de filmes "chatos", filmes que passam em festivais, etc.



Shikamaru Shikamaru (04/11/2013 10:36:50)   0 1
Deu vontade de assistir por causa do elenco.



sem avatar Adrian (02/11/2013 18:07:40)   284 0
O Fassbender tava se firmando como um dos maiores nomes de Hollywood no momento.. mas resolveu fazer vários projetos fracos, uma pena. Espero que escolha melhor seus proximos filmes.



sem avatar Diego (29/10/2013 00:23:28)   0 0
Basicamente, “O Conselheiro do Crime” pode ser resumido pelas seguintes características: turvo, confuso, abstrato, ineficaz e lento.
Turvo, no sentido de deixar a desejar o real sentido dos objetivos, tanto do protagonista (Michael Fassbender), quanto da “organização”, onde os integrantes são meros “olheiros de tudo”, de cuja atuação direta com o trabalho em questão (leia-se tráfico), não transparece em momento algum.
Somando-se a este fatigante “jogo de xadrez” pelos “olheiros”, conversas infindáveis de jargões de efeito moral são concomitantemente utilizados pelos atores, os quais nos levam à terceira peculiaridade, confuso. Uma vez que esses demorados e cansativos diálogos, através de palavras bonitas, basicamente translucidem os seguintes dizeres: “onde quer que você esteja, você sempre estará lá...”, “é, meu caro amigo, se você estiver ciente, com certeza você saberá do que estou falando”, “se hoje fosse ontem, o amanhã, cof cof, seria hoje”, e demais outras do tipo.
Seguindo o raciocínio, abstrato pelo fato dos atores principais terem relações totalmente distantes e indiretas aos reais atos ocorridos, sendo até de difícil percepção, pelos espectadores, as relações entre as circunstâncias e os personagens. Fornecendo assim uma ineficácia tamanha em associação às consequências, finalidades e desfechos. Desta forma, propiciando uma trama vagarosa, entediante e despretensiosa.
Atores de renome foram subutilizados (Brad Pitt, Javier Bardem, Penélope Cruz e Cameron Diaz, além do anteriormente citado, Fassbender), haja vista inúmeras cenas de conversas sem rumos, com isso, não permitindo qualquer tipo de maiores encenações ou profissionalismos, complicando até distinguir quem são os protagonistas, dos coadjuvantes ou vilões. Adicionado a estas intermináveis conversas, cenas alheias continuavam a ocorrer, inserindo personagens e mais personagens, piorando a assimilação entre suas importâncias no enredo, conferindo também figurantes e mais figurantes.
Detentor de um final, no mínimo, “controverso”, tal longa, dificilmente terá caminhos célebres a trilhar, podendo assim ser considerado um perfeito desperdício de talentos em massa, de cujas fracas atuações, não passam de chamarizes para o descontentamento público. Nota 1,0



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Oliver Oliver (28/10/2013 20:28:28)   -7 0
O filme mais chato, mas principalmente, o mais PRETENSIOSO (no mal sentido) que assisti este ano.
Se salva apenas a atuação da Cameron Diaz.

De resto, simplesmente horrível.
Eu sou fã do Cormac McCarthy, acho "Meridiano de Sangue" um dos livros mais sensacionais que já li, mas dessa vez ele não foi nem um pouco feliz neste roteiro.

Eu daria 2 ovos....

E que tradução porca: o "Counselor" é chamado o filme todo de "doutor", o que faz com que até o título perca sentido.



sem avatar Wilson (25/10/2013 23:34:36)   0 0
Pessoal, sinceramente... Que crítica esquisita. O cara critica o fato de chamarem ele de "conselheiro" em diversas linhas, mas não sabe que "counselor" nos EUA é como eles chamam os advogados. Então basicamente o nome original deste filme é "O advogado". Acho que um conhecimento mínimo antes da crítica, deveria ser fundamental. Seja como for, esta crítica já me perdeu ao escrever "Onde os VELHOS não tem vez". Nunca ouvi falar neste filme. Talvez seja alguma paródia de "Onde os FRACOS não tem vez".


Lico Blade Lico Blade (26/10/2013 00:54:43)   1620 0
Ele não criticou o fato de o chamarem de "conselheiro", e sim de que o personagem é quem recebe mais conselhos.

E a crítica não fala sobre o filme, e sim sobre o livro Onde os Velhos Não têm Vez, e esse livro existe. Isso fica bem claro no texto.

Kreeztiano Kreeztiano (26/10/2013 01:01:09)   1 1
Hessel estava se referindo aos romances escritos por Cormac McCarthy, e não ao filme de 2007.
O livro que deu origem ao filme realmente se chama "Onde os Velhos Não tem Vez" ("No Country for Old Men", no original) e foi lançado por aqui em 2006.

Realmente um conhecimento mínimo antes da crítica deveria ser fundamental, certo?


Matheus Matheus (25/10/2013 22:07:32)   7 0
Primeira vez que eu vejo uma crítica do Hessel sendo elogiada


Changrilá Changrilá (26/10/2013 13:43:23)   -364 0
Porque é a primeira crítica decente que ele faz...


sem avatar Guto (25/10/2013 08:55:34)   11 1
É curioso que chamem o personagem de conselheiro, porque quem mais recebe conselhos é justamente o advogado

Acredito que seja pq nos EUA eles chamam ''advogado'' de ''counselor'' em muita das vezes.


sem avatar Wilson (25/10/2013 23:35:53)   0 0
Exatamente. O cara perde linhas e linhas criticando o fato de chamarem ele de conselheiro, sem se quer entender o porque.


sem avatar Marco A (25/10/2013 07:07:55)   699 0
boa crítica, já temos uma ideia do que esperar...



Thyago Roberto Thyago Roberto (25/10/2013 00:07:32)   727 0
Ótima crítica, Hessel!



M. Galego M. Galego (24/10/2013 22:58:27)   159 0
Excelente crítica, Hessel. Eu reclamo muito quando a crítica precisa de drogas para ser entendida (ou para não fazer qualquer sentido, rs).

Ficou enxuta, clara e objetiva.

Deu vontade de conferir.



Jefferson Jefferson (24/10/2013 21:30:06)   326 0
Ótima crítica...Passou uma boa ideia do conceito do filme,sem entregar nada demais...

Parabéns Hessel,e consequentemente,parabéns Omelete! :D



Cezar Cezar (24/10/2013 20:58:53)   315 0
Com um elenco deste e só 3 ovos ?


sem avatar Christyan (24/10/2013 21:45:10)   1 0
É cara tambem achei pouco, pensei que ia ganha no minimo 4 ovos


Cristiano Cristiano (24/10/2013 19:30:57)   224 0
Pra quem ja viu a Penelope e a Cameron tem cenas de ação ou so servem de par romântico?


sem avatar WR (27/10/2013 23:34:53)   4 0
Cristiano, as duas atrizes dão um show de interpretação.

Cada vez mais me convenço de que o lugar da Cameron Diaz é no drama e no suspenso, não nas comédias ridículas que ela tem feito. Nesse filme você vai se surpreender com a Miss Diaz.

A Miss Penelope Cruz, por sua vez, não fica atrás, pois nos hipnotiza com a sua graça e sensualidade, dando ao personagem dela a beleza e a fragilidade que as caracterizam.

O filme é tenso. O filme é cruel. O filme é seco.

O filme é bom.


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Denis Denis (24/10/2013 19:25:40)   1126 0
Muito boa esta crítica. Quero muito ver este filme.



Aline Aline (24/10/2013 19:24:03)   405 0
Eu ainda quero ir ver esse filme, a história me cativou, principalmente por ser do McCarthy.



G. brucew G. brucew (24/10/2013 19:16:54)   1667 0
E eu acho que a Cameron Diaz ia passar vergonha perto de tanto ator bom...


G. brucew G. brucew (24/10/2013 19:20:52)   1667 0
*achava né...

Aline Aline (24/10/2013 19:24:30)   405 0
Na verdade, eu achei que ela iria atuar bem, porque o Scott sabe dirigir bem os atores.

Cristiano Cristiano (24/10/2013 19:30:00)   224 -1
Ela é boa atriz, da uma olhada em uma prova de amor, ela ta ótima no filme.

G. brucew G. brucew (24/10/2013 22:08:47)   1667 0
ela tá bem mesmo em Prova de Amor, mas o filme é fraquinho...



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