A Hora Mais Escura

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A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)

(Excelente)
País: EUA
Lançamento Brasil: 15/02/2013
Duração: 157 minutos

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A Hora Mais Escura | Crítica

O filme de ação da era das guerras à distância

Marcelo Hessel
14/02/2013 - 19:18

Personagens como o desarmador de bombas de Guerra ao Terror parecem mortos-vivos no campo de batalha moderno porque são espectros de guerras passadas, presenciais. Desde que a primeira ofensiva dos EUA no Iraque foi transmitida na TV como fogos de artifício ao longo da madrugada, não se fazem mais guerras como antes - guerras que marcavam a história do mundo por sua fisicalidade.

Hoje os EUA discutem como usar drones teleguiados em combate, enquanto o país se comove com a morte de um dos seus últimos heróis de guerra, Chris Kyle, o "Sniper Americano". Na Primeira e na Segunda Guerra, atiradores de elite eram párias, odiados em todo exército por sua impessoalidade; hoje são ranqueados pela eficiência. A questão é: se a guerra deixa de ser uma forma desordenada de horror e passa a ser um calculado procedimento cirúrgico - se deixa de ser um trauma, enfim - como os homens aprenderão a evitá-la?

Esse é um dilema que paira sobre os dois filmes de "guerra moderna" de Kathryn Bigelow, tanto Guerra ao Terror quanto A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty). E como boa diretora de filmes movidos pela ação, Bigelow sabe que não precisa atacar o dilema textualmente; ele se manifestará nas decisões e nos atos de seus personagens. A Hora Mais Escura evita formar julgamentos sobre os meios que levaram à morte de Osama Bin Laden porque sua intenção é justamente desafiar seus personagens - tecnocratas ensinados a serem "espertos", como diz o personagem de James Gandolfini - a fazer essa avaliação por si mesmos.

E em que condições? Metade do extenso elenco de A Hora Mais Escura é formada por técnicos da CIA que parecem saídos dos laboratórios de CSI. A primeira arma que a protagonista Maya (Jessica Chastain) ganha é um PC numa sala empoeirada no Paquistão. Assim como o desarmador de bombas do outro filme, ela inicialmente também parece à deriva, mas Maya rapidamente prova ser uma profissional de elite: menos por seu talento de caçar talibãs e mais por seu decidido perfil corporativo. Para se igualar aos homens, usa palavrões; para anular a rivalidade, aproxima-se da outra única mulher de alto escalão na equipe.

De novo, assim como o desativador de bombas, que troca a família pelo Iraque, Maya não tem namorado, família, vida pessoal. A principal transformação física que a heroína atravessa no filme é a mudança do seu penteado, que fica domesticadamente liso, como uma boa burocrata, quando ela se vê presa na rotina de Washington. A cena em que Maya é emboscada pelos talibãs parece estranha, deslocada, porque nos acostumamos com a guerra mediada, de gabinete, e aquele tipo inesperado de situação, aquele encontro ao vivo, talvez soe até como um engano. Por extensão, mesmo as cenas de tortura são regidas por uma normalidade exagerada - com o torturador usando como argumento a mais básica das lógicas, "você mente, eu te machuco" - que as faz parecer representações de tortura, e não tortura de fato.

A interpretação de Jessica Chastain encontra um tom ideal ao longo do filme, oscilando entre a frieza e a desolação, para nos colocar nesse isolamento de Maya, que é também a situação de todo espectador das guerras tecnológicas televisionadas. Entre videotapes de interrogatórios e gravações de escutas telefônicas - entre caminhos de cabos e servidores de Internet, protagonistas que a câmera de Bigelow faz questão de ressaltar - nos vemos obrigados a confiar num único recorte da realidade, aquele que os fragmentos midiáticos nos dão.

Quando enfim chega a hora do documental, da fisicalidade de fato - a operação contra Bin Laden - Bigelow traz essa imagem bastante simbólica da "hora mais escura" ("zero dark thirty" é um termo usado pelas forças armadas dos EUA para se referir a uma hora não especificada da madrugada em que o céu ainda está todo escuro). No filme, isso acaba representando um vácuo, como se toda a obsessão midiática (a overdose de vídeos e fitas na busca por um relato fidedigno) se anulasse, e no escuro o mundo voltasse a ser uma experiência que só pode ser compreendida quando vivida.

Diante da oportunidade dessa experiência, os homens teriam de novo uma noção moral da guerra? No filme, ao perceber que matou Bin Laden, um dos oficiais congela diante dos demais. Fica sem reação, em boa medida, porque é um dos poucos personagens de A Hora Mais Escura a perceber de verdade que, naquele momento, está escrevendo a História - um fator que nunca entra nos cálculos de metas da tecnocracia.

A Hora Mais Escura | Trailer legendado

A Hora Mais Escura | Cinemas e horários

A Hora Mais Escura | Omelete entrevista Jessica Chastain

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