J. Edgar

Elenco / Direção

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J. Edgar (J. Edgar)

(Ótimo)
Lançamento Brasil: 27/01/2012
Duração: 137 minutos

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J. Edgar | Crítica

Clint Eastwood vai aos heróis como ícones para encontrar um Hoover em conflito com sua própria imagem

Marcelo Hessel
26/01/2012 - 21:00

Primeiro diretor do FBI, cargo que ocupou por 37 anos, John Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) decide que precisa contar sua história, a história do Bureau. Pede que sua secretária (Naomi Watts) encontre nas fileiras da casa um agente para datilografar a narrativa. Hoover, já calvo e obeso, não se contenta com nenhum, troca-os compulsivamente. São agentes moços e belos; o diretor Clint Eastwood parece tê-los escolhido (atores como Miles Fisher e Ed Westwick) pela fotogenia.

Na verdade o elenco masculino de J. Edgar dá a impressão de ter sido todo selecionado, antes de mais nada, por critérios estéticos. Quando o jovem Hoover atravessa um corredor para inspecionar os novatos do recém-fundado FBI, em 1935, a maioria é formada por tipos apolíneos. Já personagens com desvios de caráter têm também, em alguns casos, "desvios de feição" (o nariz cartunesco de Richard Nixon, o queixo vilanesco de Bruno Hauptmann). Se as escolhas de elenco de Eastwood têm essa preocupação, pouco importa. O fato é que elas realçam o principal tema de J. Edgar: o herói como ícone.

É um tema que Eastwood - ator de heróis que se impunham mais pela presença do que pela palavra, como Dirty Harry, o Homem sem Nome dos faorestes de Leone, até o Walt Kowalski de Gran Torino - entende bem. Um herói se define por seus atos, mas um herói no cinema define-se também por sua imagem. O diretor do FBI sabe disso, nem que seja inconscientemente, por inveja ou vaidade: o único agente que ele demite durante aquela inspeção no corredor é mais alto e mais forte que Hoover.

Eastwood não só dá atenção especial aos momentos públicos de construção de imagem de Hoover (a visita ao alfaiate, os almoços, a mise-en-scéne de seu escritório), como entende que a mítica do FBI se estabelece de vez já no ano de fundação do Bureau, quando o público dos cinemas deixa de torcer para os gângsteres e passa a torcer pelos agentes, em filmes como G-Men Contra o Império do Crime, daquele 1935. O herói como ícone é um herói perene e inconteste.

Mas o legado do FBI (que Eastwood iguala em importância à Biblioteca do Congresso, em um paralelo no início do filme) não é o foco. Se Eastwood propõe reavaliar a pessoa de John Edgar Hoover, então, a única forma de fazê-lo é questionar a própria iconografia. Daí entra o tão importante e competente trabalho de maquiagem, que associa a ruína física do Hoover de DiCaprio ao peso dos anos represando sua homossexualidade e forjando uma nova imagem de si, à semelhança das estátuas que ele coleciona em seu quarto. Os arrojados saltos no tempo - Hoover entra velho no elevador e sai jovem, por exemplo - servem para reforçar a transformação física.

O tempo inteiro o filme sugere que Hoover se auto-impõe essa transformação para agradar a mãe. Por mais que reduza a complexidade do biografado, essa leitura edipiana feita pelo roteirista Dustin Lance Black (Milk) rende pelo menos um belo momento, a cena de J. Edgar em que Hoover se traveste de mulher. Para quem tudo era uma questão de imagem, o vislumbre de uma feminilidade, materializada diante do espelho, devia ser a mais sentida dor.

J. Edgar | Trailer legendado
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