Ó Paí, Ó

A vida dos moradores de um cortiço do Pelourinho, no último dia de carnaval.

29/03/2007 - 0:00 - Érico Fuks

"Ó Paí, Ó" é uma expressão bairrista dos centros urbanos da Bahia sem uma tradução específica. Uma aglutinação fonológica de entendimento fechado, sem função sintática no conjunto lingüístico, algo com um significado próximo a "olhe para isso". Essa maneira soteropolitana regionalista à la Guimarães Rosa de impor as raízes culturais de uma casta social preterida pode ser traduzida por um mecanismo de defesa e de autopreservação. Trata-se de uma via de duas mãos que ao mesmo tempo protege suas nascentes do imperialismo metropolitano e exibe o seu colorido multiétnico como um ornamento turístico. Classifica-se semanticamente no mesmo patamar onomatopaico e abreviado de um "orra meu" paulistano, um "qualé brother" carioca ou "bah tchê" gaúcho. Mas, em seu contexto interno, emana seu vigor fonético e sua identidade sociológica assim como uma espécie em extinção amazônica que impede o colonizador de chegar perto.

Ó Paí, Ó, o filme, terceiro longa de Monique Gardenberg, também caminha pelos múltiplos e ambíguos percursos da idiossincrasia ímpar porém miscigenada. Em primeiro plano ostenta o óbvio: o carnaval, a fervorosa religiosidade e o paganismo, o acarajé, a folia sexual que lambuza o centro restaurado e decadente de Pelourinho. Flerta com o neo-realismo italiano, principalmente quando foca a pobreza tagarela e fofoqueira por meio dos alicerces dos cortiços. Câmera enquadra o morador do primeiro andar e, como se fosse um elevador, sobe para dar um close no que vive mais acima. Essa verticalização de planos e contraplanos é uma interpretação filmada do legado literário naturalista brasileiro, em que o ambiente determina as relações. Aqui, nesse caso, os contornos urbanos são mais irônicos: por mais sobe-e-desce que seja o transporte das lentes, todo esse composto multicultural situa-se no mesmo pavimento social.

Ó Paí, Ó mistura a beleza arquitetônica da Jerusalém brasileira com as rachaduras em concreto de uma sociedade microcósmica que está para explodir. Adiciona a essas estampas de enciclopédias geográficas universais um pouco do Brasil verdadeiro. Desnuda-se das aulas de dicção das telenovelas e traz o sotaque arretado e corrido de Salvador para imprimir um tom realista mais coerente. No meio de mesquitas, dos azeites-de-dendê e dos Araketus perambulam pequenos estelionatários, sub-profissionais que vivem de bicos, aproveitadores, travestis e lésbicas, entre outras classificações sociologicamente marginais. Destacam-se nesse amálgama apimentado Roque (Lázaro Ramos), pintor de carrinhos de café, e Boco (Wagner Moura), neurótico e racista. Toda essa heterogenia homem-lobo-do-homem é regida por um denominador comum que, de uma maneira tragicômica, une o pequeno conglomerado como se fosse uma família: a falta de água. Água que deixou de cair do céu, água que secou do registro fechado pela proprietária do cortiço, que não quer mais saber de inadimplências e, como castigo, sente-se no poder divino de punir os humanos.

Tão multifacetário quanto esse organismo plural historicamente colonizado é a maneira de Gardenberg registrar esse documento. Na falta de um estilo próprio, usam-se todos. Isso não chega a ser um problema quando se tem como referência no cinema pós-contemporâneo um Tony Scott da vida, discípulo de uma geração que bombardeia pra tudo quanto é lado. Em tempos de videogames e reality-shows, abrir o leque de opções estéticas e estruturais é demonstrar competência e criatividade, enquanto que optar por um rígido mecanismo cinematográfico hoje em dia pode denotar falta de habilidade e limitação tecnológica. A Concepção, de Belmonte, é igualmente um filme andrógino, mas ali os múltiplos olhares e filmares representam na tela a falta de identidade da cidade-dormitório Brasília, berço político perdido que ateia fogo em índios pra se divertir. Aqui nas capitanias hereditárias da família Magalhães a câmera polidáctila de Gardenberg procura traduzir o caótico sincretismo multi-racial. Mas tamanha diversidade cromática mais parece desleixo do que formalismo ideológico. Dos granulados coloridos Rede Globo das praças públicas aos irrequietos e opacos movimentos de câmera em ambientes fechados, até culminar na fotografia cinzenta e chapada com a chegada de Psilene (Dira Paes), baiana de nascimento que retorna à cidade depois de morar uns tempos no exterior. Pelourinho acolhe Psilene, Gardenberg não.

Se a raiz forte folclórica, se o RG soteropolitano de Ó Paí, Ó se perde na incoerência silábica dos planos e cortes, acrescenta-se a esse ralo caldo cultural a inserção de exercícios de propaganda ideológica venerando o movimento Olodum e sua reabilitação de meninos de rua, pitada noticiosa totalmente dispensável a uma narrativa ficcional que se pretende tão folhetinesca quanto as páginas de Jorge Amado.

Érico Fuks é editor do site cinequanon.art.br

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