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Curitiba Rock Festival - depois da chuva, um bom festival

Curitiba Rock Festival - depois da chuva, um bom festival

Eduardo Viveiros
03 de Outubro de 2005


Rádio de Outono

Móveis Coloniais de Acajú

Suite Minimal

Charme Chulo

Los Diaños

Karine Alexandrino

The Raveonettes

The Raveonettes

Mercury Rev

Weezer

O festival de Curitiba passou o ano inteiro com sua terceira edição caminhando na corda bamba. Logo no primeiro tempo, problemas de financiamento e patrocínio fizeram a organização adiar o evento, que teve suas duas primeiras versões em maio de 2003 e 2004, para o fim do ano. Perdeu aí, de cara, o título de grande festival indie do primeiro semestre.

Mais pra perto da data marcada, outros tantos contratempos. A primeira atração confirmada ao lado do Weezer, a Fantômas de Mike Patton, abandonou o barco. Três atrações nacionais também cancelaram seus shows praticamente de última hora: a banda carioca Leela preferiu largar o festival para fazer turnê com a cantora teen Avril Lavigne, Lobão alegou problemas no ouvido para pular fora e os paulistanos do Hurtmold se revoltaram (e com razão) com a impossibilidade de passagem de som para as bandas brasileiras, desmarcando a viagem poucos dias antes do evento.

O fim de semana escolhido, 24 e 25 últimos, foi um dos mais concorridos do ano em matéria de shows no Sudeste: além de Avril Lavigne, o festival rachou mídia e público com a estréia de show novo de Los Hermanos (que divide base de fãs com o Weezer, grande atração do evento curitibano) e as boas atrações do Nokia Trends. Como boa parte do público indie que comparece ao Curitiba Rock Festival vem de São Paulo e Rio de Janeiro, a briga era feia - principalmente em um semestre onde estão todos contando os centavos, com Tim Festival, Claro q é Rock e Pearl Jam no horizonte.

Por fim, a mudança de local, também de última hora, foi um balde de água fria na expectativa da audiência. O festival saiu da Pedreira Paulo Leminski para o anônimo Curitiba Master Hall, mudando de ambiente pela terceira vez em três anos e perdendo seu maior charme cravado no ano passado, o cenário de shows mais impressionante do país.

Com tudo isso, o festival estava desacreditado e o ânimo era pouco para boa parte do público. O clima de Curitiba, com seu inverno permanente, também não ajudou a audiência desacostumada que lotou os hotéis baratos da cidade - quem quase saiu congelado no show do Pixies em 2004 sabe bem como é.

Mas a organização conseguiu dar a volta por cima e sair vitoriosa, apesar de tudo. O Master Hall surpreendeu e se provou, apesar da dificuldade de localização para os "estrangeiros" e pela precariedade da rua de terra na porta e da falta de água recorrente nos banheiros, uma excelente morada para o festival.

O bom interior, com direito a duas marquises superiores, garantiu boa visualização do palco para todos - provando ser melhor que algumas casas "top de linha" paulistanas -, e os ambientes à parte, um ao ar livre e um no fundo da casa, serviram bem para quem queria fugir dos shows por um tempo.

Só faltou não chover. E, claro, uma cerveja melhor e menos desconhecida que a tal da Conti Bier, opção única nos bares e unanimidade nas reclamações.

Porção brasileira

A escalação de bandas independentes foi mais redonda que no ano passado, apesar de ter seu balanço prejudicado pela briga ocorrida entre a organização do CRF e a gravadora independente Monstro Discos. O selo goiano abriga excelentes bandas, em ascensão no cenário no último ano, que acabaram de fora por picuinhas de bastidores.

Os nacionais receberam uma bênção ao dispensar o gigantismo da Pedreira. Nomes que teriam seus shows bem prejudicados no espaço livre (como aconteceu com vários dos recrutados em 2004) tiveram aproveitamento bem melhor na casa nova.

Dos escalados, ganharam destaque os novíssimos Rádio de Outono (divertidíssimo pop de Recife), o ska brasiliense da Móveis Coloniais de Acajú e as locais Suite Minimal, Charme Chulo e Los Diaños . A cearense performática Karine Alexandrino também fez um bom show, mas foi prejudicada por ter que lutar com um público adverso e com o pouco volume cedido aos seus gritos ao microfone (olha a falta de uma passagem de som aí de novo).

Mas nem tudo é perfeito, e a escalação trouxe dois nomes bem dispensáveis. No sábado, o espaço foi da carioca O Sete, que não apresentou nada de novo, fazendo um rock pasteurizado que se ouve em qualquer rádio dedicada ao gênero. No domingo, a gaúcha Ultramen , que ganhou mais destaque com o cancelamento de Lobão, só fez aumentar o frio que assolava quem tentava desviar do seu show do lado de fora, ao lado do telão. Crueldade colocar uma banda assim para tocar logo antes da atração principal.

Catarse do pop de aro grosso

Do lado de fora, durante a tarde do primeiro dia, o cambista vendia ingressos para o show do Uêizer ("W-E-Z-Z-E-R", fez questão de confirmar) a duzentos reais - em poucas horas, o mesmo negociante tentaria se livrar desses ingressos por qualquer "quinze paus". Na entrada do Master Hall, um bando de indie-kids com W nas camisetas e óculos de aro grosso fazia vigília na calçada enlameada, contando as horas para entrar correndo no prédio e guardar seus lugares na grade, como se fosse um show da Madonna no Pacaembu.

Porém, por mais fãs que fossem, ninguém ali estava preparado para a explosão que foi o primeiro show do Weezer no Brasil. A banda entrou no palco da casa lotada com o jogo ganho, claro. Aos primeiros acordes de "My name is Jonas" , a massa já cantava histérica, pulando, chorando e apertando o peito.

Foi quase uma celebração religiosa, e boa parte dos presentes encarava como tal. O setlist pinçou músicas de todos os discos da carreira da banda, hinos como "Buddy Holly" , "Tired of sex" e "Say aint so" e hits instantâneos do recém-lançado Make believe, como "Beverly Hills", "This is such a pitty" e "We are all on drugs". Todas cantadas em uníssono, para alegria da banda, que não disfarçava os sorrisos bobos sobre o palco.

Mas a banda nerdie é rainha da estratégia do showbizz, e jogou pesado para conquistar a platéia. Já no meio do show, os americanos emendaram uma cover de "Big me", clássico do Foo Fighters, banda amiga com quem dividem turnê atualmente lá fora. No bis, Cuomo apareceu subitamente em uma das marquises reservadas para a platéia VIP, de violão na mão, para um momento acústico de "Island in the sun" . A jogada é manjada, repetição do que já tinham feito em shows no exterior. Mas quem esperava isso aqui também? De volta ao palco, convidaram um fã da platéia para tocar a guitarra de base durante "Undone (The sweater song)", antes de encerrar com "Hash the pipe" e "Surfing wax". Ponto, ponto, ponto pra eles.

O Weezer não é indie, nunca foi, segundo eles próprios. "Sempre quisemos ser uma banda pop", disse Cuomo poucas horas antes do show. E conseguiram, dado o resultado. Não há nada mais pop entre os indies.

Esse show desvirginou muita molecada que viajou quilômetros só pra ver os americanos e tomar seu primeiro porre longe de casa. Não demora e todo esse povo vai classificar a escala do Weezer em Curitiba como "o show da vida". E não sem razão.

Rock sujo vs. prog indie

Se a primeira noite pertenceu à unanimidade vinda de Los Angeles, o domingo dispersou a porção pop, dividindo opiniões com os ilustríssimos semi-desconhecidos Raveonettes e Mercury Rev.

Os dinamarqueses já abriram a noite surpreendendo. Quem não acompanha relatos dos shows da banda e esperava um duo sobre o palco, como The Kills , ganhou o reforço de um guitarrista, um baixista e um baterista, que também cuidava dos samples pontuais em algumas músicas.

A dupla Sharin Foo e Sune Rose Wagner deu de cara com um público achochado pelo frio e pelo longo tormento do Ultramen, mas já chegou fazendo o que tem de melhor. A moleza não resistiu nem aos primeiros acordes da primeira música, "You say you lie", do último disco Pretty in black, e foi enterrada de vez com "Heartbreak stroll" e "Lets rave on", do outro disco, Chain gang of love.

Evocando o espírito dos padrinhos óbvios Velvet Underground e Jesus and Mary Chain, os Raveonettes intercalavam pepitas pop com barulho quase gratuito, além de canções calminhas quase sussurradas em dueto, como "If I was young".

Wagner é tímido na comunicação com a platéia, então todos os holofotes caem sobre a linda e simpaticíssima Sharin, que encarnava uma diva dos anos 50 sobre o palco, com sorriso permanente e agradecendo sem parar. A loira chegou a dedicar o ótimo cover de "My boyfriends back" para um casal que se espremia na grade - "eles viajaram 24 horas para assistir a gente", justificou.

No final do show, Sharin desceu ao poço para abraçar o tal casal e interagir com o público em frente ao palco. A banda foi embora sem direito a bis, jurando retorno breve ao país para uma turnê, depois de uma apresentação que pareceu curta demais pra quem tinha muito mais ainda a dar.

Grande atração da noite, o Mercury Rev começou causando sensação antes de entrar no palco. Com um telão montado ao fundo, projeções enfileiravam capas de disco, traçando uma influência que ia de Iggy Pop a Sun Ra, arrancando aplausos antecipados da platéia. Esse foi só o começo do retorno de Curitiba aos anos 70 - incluindo os figurinos dos músicos e, claro, a sonoridade que invadiu as caixas de som a partir daí.

É difícil explicar o show do Rev: a banda investiu na sua veia progressiva, resgatando a sonoridade do estilo e misturando com elementos do que se convencionou chamar rock alternativo. As músicas, que duravam vários e vários minutos e tinham direito até a serrotes tocados como violino, se complementavam com as projeções no telão - que misturava viagens psicodélicas a imagens "fofinhas" (como de um cão daschsund servindo de recheio a um pão de salsicha), tudo salpicado por citações cabeça de Schopenhauer e do ET de Spielberg. Filosofia, bobagens proto-inteligentes e mensagens politicamente corretas do naipe "salve a Mãe Terra", tudo valia.

A apresentação foi uma experiência que abusou dos sentidos, daquelas que cada um encara de um jeito. Tanto que rachou as reações: alguns experimentaram orgasmos, outros estavam a ponto de pedir seu dinheiro de volta.

Show à parte foi o líder da banda que, com sua garrafa de vinho na mão, dançava como um morcego coreografado para uma montagem de O mágico de Oz , reagindo a cada acorde da banda e carregando a platéia nas mãos.

Foi um show belo (diferente de "um belo show", note), que vai demorar muito ainda a ser entendido, mesmo que com muita boa vontade.

Balanço final

O terceiro CRF, apesar de tudo, se consagrou no já histórico 2005 para os fãs de música, com boas bandas brasileiras e shows irrepreensíveis de três importadas. Quem lembra mesmo que o Fantômas vinha?

Fotos © Divulgação



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