Omelete entrevista: Marcelo Cassaro fala sobre Dungeon Crawlers

Omelete entrevista: Marcelo Cassaro fala sobre Dungeon Crawlers

Érico Borgo
31 de Março de 2003


Página de Dungeon Crawlers

A bela arte de Daniel HDR para a revista

Tormenta, revista que descreve mensalmente o mundo de Arton

Victory, minissérie da Talismã que pode virar gibi mensal

Holy Avenger

A Mythos Editora anunciou hoje o que pode ser o início de uma série de quadrinhos nacionais na editora: Dungeon Crawlers.

Trata-se de uma minissérie em quatro edições, com roteiro de Marcelo Cassaro, desenhos de Daniel HDR, cores digitais de Ricardo Riamonde e capas de Erica Awano. Cada edição terá estrutura de publicação contendo uma história principal com 20 páginas e uma história curta no final.

Conversamos com o roteirista Marcelo Cassaro, que contou pra gente um pouquinho sobre o novo projeto, que deve chegar às bancas em abril. Confira!

Como surgiu a idéia de Dungeon Crawlers?

Longa história. Começa em 1995, quando a revista Dragão Brasil trouxe, comemorando seu número 50, uma edição especial chamada Tormenta. Eram 80 páginas descrevendo Arton, um mundo de fantasia medieval - um cenário de campanha, em jargão RPGista - para uso em jogos de RPG como Dungeons & Dragons. O sucesso foi muito maior do que esperávamos: nestes oito anos Tormenta se tornou uma linha própria de produtos, incluindo quase uma dúzia de livros e uma revista bimestral com o mesmo nome. Hoje, Tormenta é o mais popular cenário de campanha do Brasil, vencendo até mesmo as ambientações importadas.

A Trama Editorial (atual Talismã) é conhecida por publicar apenas quadrinhos totalmente produzidos no Brasil. Depois de um bom desempenho com mini-séries fechadas (Godless, U.F.O.Team, Lua dos Dragões...), a ótima aceitação de Tormenta nos levou a pensar se não valia a pena tentar uma série regular. Então veio Holy Avenger, uma história com heróis de Arton. Mais uma vez, o sucesso superou nossas expectativas. Holy não apenas continua sendo publicada mensalmente - um feito que nenhuma HQ nacional consegue igualar há bastante tempo - como supera muitos quadrinhos importados em vendas.

Apesar de bem-sucedida, Holy está próxima de seu fim. A história segue alguns preceitos dos mangá, sendo que o mais importante é ter final. Ao contrário dos comics norte-americanos, que nunca terminam e por isso acabam perdendo qualidade, as HQs japonesas sempre acabam. Holy Avenger vai terminar no número 40, em maio ou junho.

No entanto, Holy não será a última história sobre Tormenta. Nossa intenção é produzir outras, com outros personagens. Uma delas é Victory, que tem como protagonista uma meio-elfa semideusa nascida em Arton. Vic teve duas mini-séries pela Trama, e a partir de maio deve se tornar uma série regular nos EUA, pela Image Comics. Outra é Dungeon Crawlers.

Sobre o que é Dungeon Crawlers?

Não sei se a maioria dos leitores vai notar, mas é sobre duas formas diferentes de se contar uma história.

Meu jeito de fazer quadrinhos é meio bagunçado, mais intuitivo que qualquer outra coisa. Coloco as coisas ali sem nenhum motivo especial, apenas porque “parece legal”. Não tenho grandes preocupações em passar mensagens, esconder símbolos, pesquisar nomes - quando acontece, costuma ser sem querer. Na verdade, quando começo uma história, não tenho a menor idéia de como ela vai acabar. Prefiro assim, porque desse jeito também posso aprender com a história, posso vê-la crescer, ver seus personagens ganhar substância. Posso me divertir tanto quanto os leitores.

Gosto de improvisar, transformar problemas em soluções. Gosto da liberdade de não precisar planejar. Meu método é não ter método. Tanto que uma vez, quando tentei dar aulas em um curso de quadrinhos, foi um desastre: não sei ensinar como fazer uma HQ, porque - exceto por meia dúzia de fórmulas manjadas - eu mesmo não sei por que faço isto ou aquilo.

Durante muito tempo pensei que era assim com todo mundo. No entanto, tenho conhecido outros autores de quadrinhos que não conseguem trabalhar desse jeito. Não fazem uma história apenas por fazer. Precisam planejar, precisam colocar mensagens, significados, símbolos. Precisam ter tudo definido, ou não conseguem nem mesmo começar.

É um jeito bem seguro e confortável de contar uma história. Dá muito mais trabalho, mas também poupa muitos problemas - creiam, eu teria evitado uns problemas BEM grandes se a Holy fosse feita assim. É também uma forma mais responsável de escrever. Mais Tolkien e menos Asimov. Vocês não fazem idéia da admiração que tenho por autores assim, mas eu mesmo nunca seria capaz. Não seria divertido. E uma das coisas mais importantes nos quadrinhos é que eles DEVEM ser divertidos, para quem os lê e para quem os faz.

Então chegamos a Dungeon Crawlers. Como também acontece com Holy Avenger, o título é um termo RPGista: um “rastejante de masmorra” é um aventureiro que explora túneis e cavernas para matar monstros e conquistar tesouros.

Esta primeira história se chama "A Caminho de Lenórienn", uma minissérie em quatro partes. Os protagonistas são Fren, um ranger elfo devoto de Allihanna, a Deusa da Natureza; e Aurora, clériga de Tanna-Toh, a Deusa do Conhecimento. Estas deusas são rivais, pois a primeira protege os povos selvagens, enquanto a segunda é patrona dos povos civilizados. Fren e Aurora refletem essa diferença. Ambos têm bom coração, mas ele é impulsivo, caótico, irresponsável, enquanto ela é metódica, ordeira, ponderada. No entanto, precisam trabalhar juntos para cumprir uma missão.

Esta é a relação mais óbvia entre os personagens e os métodos de contar história que mencionei, mas não é a única. O resto, espero que os leitores consigam notar.

Como teve início a parceria com a Mythos? O projeto era anterior à parceria ou foi encomendado?

Hélcio de Carvalho, editor-chefe da Mythos, fez o convite. Sua intenção é iniciar uma linha de títulos nacionais, e esperamos que Dungeon Crawlers seja apenas o primeiro. O trabalho na Talismã toma grande parte de meu tempo e energia, de modo que quase nunca posso produzir para outras editoras - mas fiz uma exceção neste caso, porque o mercado está difícil para as HQs, e este projeto pode significar uma porta aberta para outros autores.

Os títulos Tormenta e Holy Avenger pertencem à Editora Talismã, de modo que não podiam ser usados - mas o cenário pertence a mim e meus colegas, Rogério Saladino e Mauro Trevisan. Então optei por outra história e outros personagens. Também pesou o fato de que Erica Awano não pôde desenhar a série, por ainda estar ocupada com os últimos números da Holy. Daniel HDR assumiu as ilustrações e seu traço exigiu uma história diferente.

Pode virar série regular?

Não sei. Como é tradicional, dependerá das vendas. Caso o resultado seja positivo, temos dois cursos de ação possíveis: produzir mais histórias com os mesmos protagonistas (complicado, pois ainda não sei vão escapar com vida...); ou usar o mesmo título para outras histórias, com personagens diferentes - e se possível, autores diferentes. Espero que meus colegas também tenham chance de escrever qualquer coisa.

Há planos para outros projetos?

Na Mythos, tudo depende do desempenho da Dungeon. Na Talismã, após a conclusão da Holy, não sei ao certo.

Estou ruminando uma ou duas histórias, mas não sei exatamente quando começam, e nem quem as desenhará. Erica Awano tem alguns projetos próprios, e espero que ela os coloque em prática - são histórias muito interessantes, muito ricas, e acho importante que sejam contadas. Além disso, ela também estará ocupada aplicando retículas na Holy para uma reimpressão (estamos chamado de “versão remasterizada”).

Também devo me preocupar com a Victory. Embora a revista seja inicialmente bimestral e os primeiros arcos estejam prontos, dependendo das vendas ela corre o risco de virar mensal, o que deve tomar ainda mais de meu já escasso tempo. E existe também a linha Tormenta para RPG, que precisa de atenção...

O Omelete agradece a Marcelo Cassaro pela entrevista!

Aguarde mais informações sobre Dungeon Crawlers aqui no Omelete e confira o preview da minissérie no site da Mythos Editora.



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